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XII Panorama Internacional Coisa de Cinema – Segundo dia (10/11/2016)

Minotauro – Viagem ao Labirinto do Corpo

Uma peça instigante sobre o desenvolvimento humano. As etapas, do nascimento a morte, são retratadas como fases de videogame, onde o jogador pode abandonar ou continuar o jogo após sofrer um forte baque. As fases são, na verdade, performances artísticas que parecem simbolizar não só a natureza humana, numa progressão; sua fertilidade, vitalidade e a mais profunda sombra de angústia, medo e dor, representadas pela performance de uma criatura horripilante; dotada de máscara, chifres e espinhos nas costas.

Parece Pouco implementar os símbolos vindos do Videogame. Além de súbitos incrementos no ritmo e a metáfora central do Game over (Jogo encerrado), que se assimila a alguns momentos da vida de qualquer pessoa, soam como enfeites de modernidade mais fraca possível. Onde se entope de símbolos relacionados com um ideal de Juventude; algum produto, e se espera uma identificação, por parte do público.

Não passa de um filme sobre a vida. Tendo sim um mérito por alcançar isso de forma eficientes; pelas performances e motivos recorrentes. Sendo um filme simples e enfeitado sobre a experiência da vida.

Diretor(a): Leonardo França

A Cadeira de Balanço

Também um filme interessante, mas que poderia encerrar-se com essa descrição apenas. Sendo ele minimamente especial, simplesmente por ter uma migalha (estou sendo generoso aqui) de experimento formal.

Somos, durante maior parte do filme, aquilo que nos causa maior tensão. O objeto ou pessoa que chega na casa de um casal; implantado em uma espécie de aparelho que se assemelha a um micro-ondas. Um homem, ao lado da sua esposa, observam atentamente a esta coisa; o homem, porém, parece mais perturbado e envolvido. Nós, que ocupamos o lugar deste elemento perturbador; subjetivamente, não o observamos. E a tensão vem daí; de querer saber o que é esta coisa.

Paralelo a isso, tem-se os temas da maternidade, paternidade, distanciamento nos relacionamentos; pairando. Este conteúdo é organizado de forma simples, porém.

Um exercício eficiente de gênero. No que almeja, muito pouco, alcança com êxito.

Diretor(a): Fernanda Fontes Vareille

 

Ridículos

Com filmes como este há de se ter cuidado, pois de um lado são propostas interessantes; diversas; com variedade de estilos e formas. Uma maneira diferente de se realizar dentro do panorama, especialmente o baiano, de cinema.

Por outro são filmes com blocos de conceitos e formas extremamente repetidos de maneira a, dentro da sua variedade, criar uma monotonia quase que insuportável, e alterna momentos de força muito pequena, com algumas pérolas de muitas qualidades.

O filme parece ser uma espécie de cinema direto onde se capta uma entrevista de um candidato a uma vaga num grupo de palhaços; alternado a isso, as performances dos palhaços. A combinação desses estilos é feita; o suposto cinema direto (onde se pode ver câmeras e operadores de som, simulando uma situação real) e o cinema mais performático; câmera parada; tableau, onde, num plano mais aberto, vemos os palhaços pintarem e bordarem. A primeira muito mais interessante, já que se baseia na interação das pessoas, algo que forma uma base sólida capaz de ser fonte de dinamicidade constante.

A isto atribuo a interação dos indivíduos, todos de personalidade única; forte; rostos expressivos e condução das situações sempre de maneira a adicionar alguma novidade, de alguma forma.

As palhaçadas, ao contrário disso, são fontes recorrentes de repetição. O tipo de humor é o mesmo; físico. E sempre relacionado a mesma fonte; o desengonço dos palhaços, e de forma linear e única, sem adição de outras situações paralelas, e organizadas em estrutura repetitiva. Uma interação entre os indivíduos na entrevista é sempre seguida por uma performance. Dito isso, é como se assistíssemos uma pessoa levanto uma torta na cara cem vezes. Nas primeiras três, ri-se; nas noventa e sete seguintes, a reação é a mesma. De indiferença. Pelo menos para mim foi assim.

Entre algumas dessas interações, há momentos que tocam; para além do rir, se aproximando da natureza da performance, algo que é, em essência, agridoce; dual. A cena do corte do cabelo e da dança da palhaça comendo banana se enquadram ai.

Uma pena que quando se adentra perto da metade do filme, as performances mais repetitivas tornam-se excruciantes e acabam por obscurecer as partes mais interessantes.

Diretor(a): Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge

Confidente

A atmosfera da memória, em confidente, é constante. Por meio de filmes de arquivo de épocas que remetem ao inconsciente coletivo Brasileiro da infância (anos 40, 50, 60); uma nostalgia que temos dessas épocas que guardam um espaço especial na memória do povo deste país; cria-se uma atmosfera que captura uma parte desse sentimento.

Pena que o filme traz os vícios mais rasteiros do atual cinema experimental brasileiro. São rasteiros por que, se é filme experimental, tem de experimentar; e para mim, copiar a forma, por ela estar em uso constante, é a antítese do filme experimental e sinal de preguiça e mediocridade.

Então, muito do valor conseguido com os filmes de arquivo sobrepostas e o tema interessante, é deletado por uma narração absolutamente genérica e a montagem que repete imagens iguais, uma atrás da outra, muito rapidamente; forma que, se fosse maçã, já teria caído de podre, dentro do panorama atual.

Diretor(a): Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes

Interdito

Um experimento bastante interessante e esteticamente belíssimo. Num plano único; estático, vemos um casal se aproximando, se abraçando e se beijando. No ínterim, um dos membros do casal ascende e apaga um isqueiro que, nas condições de uma praia escura, brilha em flash, se assemelhando a um farol.

Dessa maneira, pode-se interpretar como uma simples metáfora para a volubilidade das relações; mas o filme rapidamente se expande para além disso. A belíssima imagem do mar a noite; com quase nenhuma luz artificial (algo que, como realizador, gostaria de fazer diga-se de passagem); sombria e solitária; dá contornos da vulnerabilidade humana, misticismo e vaidade. Funciona como as sombras, no cinema Noir.

É incrível como alguns elementos trazem um turbilhão de significados e expandem um tema ou história de forma exponencial.

Diretor(a): Leon Sampaio

 

Cinema Novo

“Sou caçador de nuvens. Já fui caçado por tempestades”

A frase do eterno Presidente da câmera Federal e presidente da constituinte, Ulysses Guimarães é uma perfeita descrição do Cinema Novo; movimento cinematográfico brasileiro dos anos 60 e 70; examinado criativamente, com tons informativos e, majoritariamente poéticos, pelo documentário com o mesmo nome do movimento: “Cinema Novo”.

Sempre perseguidos; reféns de uma situação; mas dotados do amor mais profundo, os cineastas eram como heróis, assassinado um dragão a cada dia. Mesmo assim e, a partir disso, criaram filmes diversos, mas com pontos, imagens e temas que os uniam dentro da sua diferença.

É a partir deste viés que Eryk Rocha parece querer desbravar este movimento. A partir do seu “espírito comum”. Certamente é bastante exitoso, já que por isso só o filme já consegue atrair bastante, visto que a semelhança entre filmes diferentes é assustadora, e é fonte de atenção a todo tempo, dado o quão parecidas são as várias imagens e maneiras de retratar um gesto ou assunto.

As pessoas sempre parecem correr de algo ou utilizar da violência mais brutal umas com as outras. O mar, também, parece ser recorrente como símbolo da vontade de ir embora, ou da nostalgia de tempos que não voltam mais. Coisas que são recorrentes no Cinema Brasileiro.

Em meio a isso, há uma camada informativa de valor muito grande, onde se vê os realizadores falando de seus filmes e do seu cinema. Discutindo, cada um com o seu ponto de vista, sobre o panorama de cinema a época, histórias, estilos e o que pensavam a àquela altura sobre o cinema Brasileiro. Dessa maneira, percebe-se características do movimento que de outra maneira não seria possível perceber. A forma como o cinema novo foi fruto de um impulso de alguns indivíduos, da conjuntura socioeconômica brasileira dos anos 60 e de um “Vazio cinematográfico”, como chama Joaquim Pedro de Andrade, existente no Brasil, por exemplo. Isto quando se diz respeito ao cinema que se aproxima mais dos exteriores e, portanto, da realidade brasileira. Também, e não menos importante, que o cinema novo foi pioneiro entre o cinema moderno ao redor do mundo e, não só isso, criou uma própria forma; orgânica e absolutamente brasileira; mais pujante em expoentes como Glauber Rocha.

Tudo isso é grudado por um ritmo estável e relativamente rápido; além de forte, pois contrapõe imagens similares criando embates que fortalecem o aspecto da semelhança entre os filmes e ligam o cinema de diferentes realizadores e até de diferentes épocas, em um discurso que busca a evolução não só do cinema brasileiro, mas de seus temas, forma, histórias e modelo de produção.

Diretor(a): Eryk Rocha

XII Panorama Internacional Coisa de Cinema – Primeiro Dia (09/11/2016)

Pequeno aviso antes do texto do único filme visto hoje e um dos três que abre o XII Panorama Internacional Coisa de Cinema:

Nos dias seguintes, até o dia 16/11/2016, irei cobrir o festival escrevendo pequenos textos sobre os filmes assistidos nele. Então fiquem ligados no blog pra ler sobre filmes recentes e clássicos do cinema Nacional e Internacional.

E se você for de Salvador, não deixe de conhecer o festival; os preços são baratos, a variedade é relativamente grande e os filmes são relevantes. Também, a equipe tem o esforço de projetar alguns filmes em 35 mm; o que é algo muito raro atualmente e um privilégio poder assistir um filme neste formato.

“Polícia é polícia; bandído é bandido”

É com essa frase que se pode definir o filme de Hector Babenco. Lúcio Flávio, o Passageiro da agonia; um dos que abre o XII Panorama Internacional Coisa de Cinema, exibido em 35 mm, carregando toda a energia, toque e transparência que este formato permite . A escolha deste filme é forte, e traz como característica a vitalidade, leveza e força de Babenco e dá época em que ele foi realizado.

A polícia fica no centro. O bandido também. E sobre essas duas figuras o filme não parece fazer distinção. Embora, formalmente estejam em campos opostos; na prática, agem do mesmo lado e numa linha muito fina, caminhando de mãos dadas; um tentando derrubar o outro, mas com essa prática acabam, sem querer, realizando o equilíbrio tão necessário para chegar ao outro lado. Embora, eventualmente, quase caiam vez ou outra.

Este outro lado é o dinheiro. Grana. O meio imaterial para a tão sonhada escalada; subir na vida. Ser chefe e não ser um “Pé de chinelo”, como dito várias vezes por Lúcio Flavio. Esta parece ser a sua “Agonia”; e não as intermináveis torturas a qual é submetido, que ele encara como rotina.

Rotina parece ser a palavra chave neste filme. Assim como em Alemanha ano 0 e rigorosamente todo neorrealismo italiano, a cidade reflete os objetivos. Ambos visam o mesmo fim, mas com causas diferentes. Na Itália de Rosselini; a guerra. No Brasil de Babenco, a desigualdade. Paralelamente, a câmera parece passear da mesma maneira, como se os olhos fossem similares; os movimentos panorâmicos de Babenco são semelhantes, percorrem a cidade em alta velocidade, numa realidade que não se pode registrar adequadamente. E o famoso Dolly que se afasta de uma mulher correndo na direção da câmera é replicado; ao invés de “Francesco! Francesco!” temos “Lúcio! Lúcio!”. Aparentando, então, fins similares.

Também no objetivo de simplesmente querer acompanhar pessoas, Babenco cruza com o cinema italiano dos anos 40. Se de um lado vemos a força nos temas, de outro a leveza na hora de contar a história; o estilo quase que desaparece e não há objetivos; apenas a rotina de algumas pessoas e quando elas morrem (isso não é Spoiler); a morte é mais forte e dura, e os intermináveis pesadelos de Lúcio Flávio, que são conduzidos magnificamente sem alteração de nenhuma natureza; como vida real; parecem ainda mais verdadeiros.

Escondidos; discretos e ao mesmo tempo explosivos; baderneiros. É a gangue de Lúcio Flávio e, também é o cinema de Babenco. Uma junção inesperada e estranha, que traz as duras camadas da realidade envoltas em linho macio. Uma excelente escolha da curadoria e direção do XII Panorama Internacional Coisa de Cinema, para se relembrar uma grande obra, um grande cineasta, pensar no Brasil e pensar no cinema Brasileiro.

Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (Brasil, 1977)

Direção : Hector Babenco

Roteiro : Hector Babenco, Jorge Durán e José Louzeiro

Elenco : Reginaldo Faria, Ana Maria Magalhães, Grande Otelo, Ivan Cândido, Lady Francisco…

Fotografia : Lauro Escorel

Montagem : Silvio Renoldi

Pedido de Apoio

o melhor dia do ano

 
Pessoas que seguem este blog e gostam do conteúdo dele;

Eu lhes peço um apoio. Estou fazendo um curta metragem e ele está sendo financiado coletivamente, pelo Catarse. Ser financiado coletivamente, significa que várias pessoas estão dando seu dinheiro, voluntariamente, para que o projeto aconteça.

Dessa forma eu venho aqui pedir o apoio de vocês, que gostam do conteúdo que faço aqui e me acompanham. As contribuições iniciam em 10 R$ e, a partír de 15 R$, há premiações maravilhosas que incluem DVDs da Versátil, Camisas do filme, posteres, Roteiro autografado, A senha da pré estréia online do filme e até seu nome como patrocinador Oficial do filme!

Caso não possa contribuir financeiramente; a divulgação do projeto nas suas redes sociais e entre seus amigos e família é de grande ajuda, também.

Deem uma olhada na página e, por favor, contribuam com o filme; é um projeto muito importante para mim, para equipe e para outras pessoas que viveram essa história. Então ajudem o projeto a sair do papel!

https://www.catarse.me/omelhordiadoano

O Cinema Nacional é de Esquerda?

Há, no senso comum, a concepção de o cinema nacional é de esquerda; e, de tempos em tempos, surge alguma figura para cuspir esta afirmação em alto e bom tom, como se fosse o dono da razão e soubesse tintin por tintin como é o cinema produzido neste pais (geralmente quem afirma isto de maneira reducionista, não conhece o cinema nacional).

Antes de apresentar uma resposta para esta pergunta, é preciso salientar a natureza da arte em relação à política. Não existe forma de arte imparcial, logo, não existe cinema imparcial. Isso por que sempre existiram barreiras entre a câmera e a realidade. Seja o enquadramento, a lente, a angulação da câmera, ou a sua simples presença, que faz com que as pessoas ajam de maneira diferente. Tudo isso é controlado por um grupo de pessoas e direcionado por um olhar (geralmente), fruto da subjetividade dessas pessoas e, consequentemente, representando suas opiniões políticas. Dito isto, sempre existirá “arte de direita” e “arte de esquerda”, no sentido em que se coloca essa afirmação.

Quando escuto “Arte de esquerda”, imagino que o indivíduo se refira ao tema principal do filme ser de esquerda. Por exemplo, dentre todos os temas, aquele que é centro da história ou acontecimentos, é algo mais relacionado a este espectro político. Nesse caso, a afirmação não faz sentido.

Filmes que poderiam ser considerados de esquerda, com alguns dos seus realizadores inclusive declaradamente pertencentes a este espectro político, tem como tema principal constatações e exposições acerca da realidade brasileira. O Som ao Redor (2013), Que Horas ela Volta? (2015) e Boi Neon (2016) são exemplos. O primeiro fala de um Brasil dividido e com várias expressões de violência, o segundo de um país que experimentou avanços enormes, mas ainda mantém a cultura atrasada e o terceiro de uma parcela da população que consegue tirar beleza de um ambiente marrom, grosso e árido.

O que esses filmes fazem é, basicamente, constatar e expor feridas do nosso pais (talvez o terceiro com menos contundência que os dois primeiros). Dizer que esses filmes são de esquerda é dizer que o que eles retratam é tendencioso e não verídico; é negar os fatos. Constatar a divisão social e racial não é “ser de esquerda”, muito menos reconhecer que houveram avanços no pais. É simplesmente reconhecer a realidade e retrata-la da maneira que esses realizadores melhor sabem fazer. O que isso mostra, diz respeito mais a quem faz essa afirmação que os próprios cineastas. É a negação doentia de uma parcela da direita que parece fechar os olhos diante de algumas coisas que acontecem neste país.

Um outro argumento que se pode dizer é o do enquadramento, ou seja, quando se diz que o cinema nacional privilegia um certo tipo de história ou um certo tipo de personagem. Bem, pelo menos este argumento faz algum sentido, já que para constatar alguns dos problemas brasileiros, algumas histórias e alguns personagens, pelo menos na embalagem; por fora, podem se repetir.

A partir daí, pode-se constatar algo interessante sobre onde entra uma parte dessa visão política que tanto se demoniza. Talvez, na maioria dos filmes, e ainda mais neste tipo de cinema que constata e expõe; a subjetividade do realizador esteja mais na maneira como ele retrata os personagens e seu ambiente, que no tema central em si. Em O Som ao Redor, a subjetividade das pessoas é maior na caracterização do garoto rico e da doméstica; mais na forma de vê-los que no tema que paira durante todo o filme. Esses filmes me parecem ter isso em comum; o tema é uma verdade absoluta, é algo que acontece. Existem violências diversas e divisões no Brasil, não são invenções de um cineasta de esquerda. Outros aspectos revelam mais a mão do realizador.

Sendo a fonte desses temas as histórias, seus personagens e a forma de vê-los, não é que o cinema nacional é de “esquerda”, mas que precisa de alguns recursos para expor uma realidade que não pode ser negada. Para mim, esse cinema soa mais como de “bom senso” do que “Esquerda”.

O que se poderia chamar de “cinema de direita”, então, tem mais haver com valores da direita; algo que se pode encontrar nas chanchadas da Globo filmes como Candidato Honesto (2014) e Linda de Morrer (2015). Onde valores desse espectro político predominam nas relações entre os personagens e balança moral dos filmes. Neles, predomina uma espécie de escapismo; muito mal feito, porém, onde o conservadorismo reina absoluto na forma e repetições intermináveis de maneirismos, personagens e histórias.

Nas novelas e alguns dos filmes que geralmente ganham maior destaque (por sua associação com grandes distribuidoras como a globo filmes) essa lógica e esse olhar é majoritário; portanto, o cinema Brasileiro não é dominado por apenas um ponto de vista, como gostam de afirmar alguns. O que acontece é que esses filmes que erroneamente são chamados de “Esquerda”, rodam o mundo por se proporem a discutir honesta e abertamente o Brasil, o que outros não se dispõem a fazer (Para ficar claro, não condeno filmes de gênero; os adoro. Para argumentação, estou usando mais esses exemplos de filmes que citei).

O mundo não é binário. O que se pode afirmar é que este cinema não pode ser reduzido a “de esquerda”, ele tem no centro uma observação violenta dos problemas do nosso país, que são reais e muito feios, algumas vezes. Nenhum cinema, na verdade, deve ser.

Meu Amigo Hindu

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Acima de qualquer coisa, algo há de ser dito sobre este filme: Ele nasce da autêntica vontade de expressar situações, experiências e medos e isso é uma das fontes mais fortes do cinema. A paixão profunda é algo que queremos compartilhar com outras pessoas; faze-las sentir o que sentimos; viver o que vivemos. E ai reside a estratégia do novo filme de Babenco. Ele parece querer que vejamos a sua história, mas em alguns momentos, ocupemos o seu espaço; e é nesse vai e vem de pontos de vista que a experiência é transposta através da tela.

Por mais nobre que seja o objetivo do cineasta, nunca é alcançado de forma plena. O filme parece ser impulsionado por algumas escolhas, ao mesmo tempo que tropeça a ponto de cair em outras, como numa eterna corda bamba; De maneira que os momentos de maior sensibilidade (que são muitos!) cedem diante dos, também muitos, escorregos; que não só retiram profundidade como fazem, até, que se questione a veracidade do que acontece na tela.

O mais óbvio e grave dos problemas é a atuação. Com exceção de Willem Dafoe, o elenco atravessa o filme como um carro em estrada esburacada, instável e sempre jogando os espectadores para fora. Tudo soa como direto do roteiro; como se os atores tivessem lido seus diálogos e se esforçado para repeti-los. O ritmo, é claro, se prejudica por essa mecanicidade (amplificado pela montagem que, estranhamente, privilegia a tortuosidade do tempo); Algumas coisas parecem corridas e simplesmente fora do lugar. E não me refiro aqui as propositais quebras de ritmo, mas sim do tempo entre os diálogos, expressões e interações.

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O fato do filme ser todo falado em inglês amplifica ainda mais essa deficiência. Nenhum dos atores brasileiros sabe falar a língua fluentemente; isto além de não fazer sentido na história é mais uma barreira para que eles se expressem. É naturalmente difícil comunicar-se como se deseja em uma língua não nativa; não saber o que a palavra significa, com 100% de certeza, compromete o entendimento do personagem e a relação adequada de significados entre os gestos que se pretendem. Em termos diegéticos, a história se passa no Brasil e os personagens tem nomes nacionais, mas apenas o protagonista fala inglês fluentemente; os outros falam a língua com sotaque brasileiro, o que é normal, mas não faz sentido algum dentro daquele universo.

Dito isso, a segunda metade evolui consideravelmente. Nela, a presença majoritária é de Dafoe; logo, o ritmo e a insegurança geral são, pelo menos em parte, anuladas e o filme pode despontar como o que se propõe. A jornada rumo a cura é insipiente; o que há de mais belo é a valorização da vida através dessa jornada; não só a forma que os pequenos atos ganham valor, mas a enorme euforia de ter se livrado da doença.

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As inseguranças de Diego são fortes e permanentes. É fácil para qualquer homem se identificar com os anseios e medos de Babenco (o filme é biografia de uma parte da sua vida). A pulsão sexual parece ser movida mais pelo medo da solidão e da morte que de qualquer outra coisa; e quando o protagonista vai até uma garota de programa, claramente no intuito de fazer passar a dor, se encontra com uma ainda maior quando percebe, depois do ato, que está sozinho. Tenho certeza que uma grande quantidade de homens já sentiram tal coisa e conseguem se identificar com isso.

A versatilidade de significados é expressa de maneira simples, retratando sempre um homem em conflito através das sempre agressivas sombras que o consomem. A luz em demasia, porém, é sempre presente; como a escuridão, ela o consome, mas de maneira mais esperançosa e positiva, no geral. O excesso, parece retratar a alegria; a mínima euforia que se expressa nos momentos mais felizes, apesar das enfermidades. O bonito contraste entre esses opostos grita agonia, desespero e solidão, mas também as pequenas felicidades em meio a tanta dor e a enorme e simples euforia de se saber que está vivo. Através da luz, vemos nascer a beleza em meio a miséria; como uma flor de lótus que nasce em meio a lama. 

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Meu Amigo Hindu (My Hindu Friend, BRA, 2016)

 

Diretor: Hector Babenco

Elenco: Willem Dafoe, Maria Fernanda Cândido, Barbara Paz, Selton Mello, Guilherme Weber, Reynaldo Gianecchini…

Roteiro: Hector Babenco

Diretor de fotografia: Mauro Pinheiro Jr.

O Padre e a Moça

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Há algo de místico em O Padre e a Moça. Algo que se sente em alguns outros filmes; aqueles que dão os sentimentos mais esquisitos, mas que de tão peculiares torna-se difícil explicar com palavras o que se sente ao assisti-los. É inútil tentar estabelecer uma sistematização para traçar os porquês do filme causar o que causa. O texto vira, então, impressões do filme. O máximo que se pode fazer é tentar explicar o que foi experimentado e listar alguns dos aspectos que mais agradam, de forma que o crítico se torna, de certa maneira, impotente diante do cinema. Este parece ser o poder de um filme feito com verdade.

Dentre tudo o que mais encanta é a forma que a música parece refletir todos os outros aspectos dentro do filme e destacar a incrível melancolia presente no conjunto das ações e na concepção de destino, que me pareceu a grande força impulsionadora do filme. A peça de Carlos Lyra é arrebatadora no sentido de construir um sentimento de inevitabilidade diante do sentimento que os dois personagens apaixonados sentem, e na trajetória para concretizarem este amor.

No enterro do padre Antônio, a melodia transpõe uma grande melancolia; mas de escala épica. Como se aquele fosse um episódio chave, que é de fato, e inevitável para que a história siga. Ai parece se traduzir o ciclo da vida que se encerra na morte; e dela nasce um amor incontrolável e proibido. O padre e a moça, mesmo sabendo das consequências da sua relação, não conseguem conter seu amor, que soa como uma peça pregada pelo diabo nos dois amantes.

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Além deste grande entrevero para que o amor se concretize, há outras condições que o dificultam. Por exemplo, a natureza da cidade em que habitam os personagens. As pessoas da pequena cidade de São Gonçalo do Rio das Pedras veem cada passo dado por seus vizinhos e se não veem, ficam sabendo. Isso pelo tamanho da cidade que é brilhantemente ressaltado pela música que, ás vezes, remete a um sentimento provinciano.

Essas dificuldades percorrem todo filme e são destacadas pela fotografia de Mario Carneiro, que além de criar texturas e formas que remetem a uma cidade pequena do interior de Minas Gerais, como as ladeiras íngremes, paredes tortuosas e as sombras naturais que se misturam ao ambiente; também ajuda a construir a atmosfera que percorre a duração da obra. O alto contraste entre preto e o branco conta uma história em si mesmo, e o conflito proveniente desse embate se adiciona a tensão sexual que é tema central deste filme.

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Depois dessa longa jornada, o amor é consumado e morre no “fogo do inferno”; como se fosse o julgamento daqueles personagens por suas ações. O cineasta, porém, não “interfere” nisto. São os próprios moradores da cidadezinha que o fazem, como se fossem dotados de autoridade para tal. O encerramento vem por um trecho do poema de Drummond: “Ninguém prende aqueles dois,
Aquele um negro amor de rendas brancas”. Sugerindo uma continuidade metafísica aquilo e, num tom sombrio rodeado pelo preconceito e maldade humana, que, independente do fim que teve, o amor valeu a pena.

Nesta hora, me dou conta da genialidade da escolha que, acredito eu, é a principal para a construção da atmosfera do filme. Ao optar por filmar em São Gonçalo do Rio das Pedras, Joaquim Pedro de Andrade traz uma enorme carga de melancolia que é responsável por esta estranheza descrita no primeiro parágrafo. “Aqui não vem mais ninguém, padre. Tem muita serra pra subir. Descer pra ir embora é mais fácil”, diz Fortunato. Um lugar de imensa beleza, com gente sofrida, mas que parece parado no tempo, tanto nos costumes, como nas construções que ali estão imóveis por mais de cem anos.

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O Padre e a Moça (Brasil, p&b, 1965)

 

Direção: Joaquim Pedro de Andrade

Fotografia: Mario Carneiro

Roteiro: Joaquim Pedro de Andrade

Elenco: Helena Ignez, Paulo José, Mário Lago, Fauzi Arap, Rosa Sandrini

Duração: 90 min.

Sangue Azul

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Há algo de mágico e sensual em ver um grupo erguendo um circo, em que, horas depois, performarão seus números em frente a uma plateia. O que acontece naquela ilhazinha sempre é cercado de uma aura mística, nostálgica e ao mesmo tempo amarga. Quase como se o filme quisesse nos dizer algo sobre aqueles personagens, mas o que tem a dizer é tão complicado e ramificado, que precisa dar voltas poéticas ao redor da nossa percepção, de um jeito que ficamos hipnotizados observando esse movimento.

Guardada as devidas proporções, Sangue azul tem as características que se espera de um filme de Fellini ou Renoir, talvez, um pouco dos dois. Despertando tanto as emoções mais simples e passageiras, dessa forma nunca ficando monótono, mas também aquelas mais complexas e mágicas, as quais a descrição com palavras se torna difícil.

As imagens do filme possuem uma qualidade etérea, o que torna difícil desgrudar o olho da tela por um segundo sequer. Em um momento vemos Zolah (Daniel de Oliveira) e Raquel (Caroline Abras) mergulhando na imensidão do mar, passeando pelo seu infinito azul de pedras e peixes, no que é um dos elementos recorrentes do longa. O mar é uma metáfora para o interior de Zolah e suas origens. Uma questão mal resolvida que ele se recusa a enfrentar. Dessa forma é interessante reparar como o protagonista tem medo do oceano e se recusa a adentra-lo, algo que remete não só a ilha e um medo de encara-la, mas a relação com a sua mãe, que é simbolizada pela água quente, confortável e que é o ambiente de morada dos bebês antes de nascer.Sangue azul 3E mesmo que essa associação não seja tão fresca desde 8½ (Fellini), no filme funciona, majoritariamente, porque há uma série de consequências e outras questões atreladas a ela. Não só o protagonista tenta contornar esses problemas com sexo, drogas e álcool, mas chega até a adotar Zolah como nome, em função do original, Pedro. E isso é bastante revelador do seu psicológico. Não só muda de nome para cortar qualquer laço que tinha com a sua ilha natal, mas utiliza um nome cosmopolita, que sugere um cidadão do mundo, alguém que, como nos é revelado em um ponto do filme, viaja por diversos lugares passando por diversos países e conhecendo diversas pessoas, talvez, tentando substituir suas ligações antigas e duradouras por outras mais curtas e efêmeras.

Dessa maneira é engraçado perceber que o circo age como uma espécie de incitador da história, forçando Zolah a voltar para a ilha, que age como um purgatório, lugar onde ele será obrigado a resolver seus conflitos passados; pagar seus pecados. Esse caminho se assemelha a uma jornada, já que vemos o protagonista evoluindo cada vez mais em relação a resolução dos seus dilemas. Aqui, a água tem um grande papel nesse senso de um longo trajeto a ser percorrido. Zolah inicia com pavor da profundidade do mar, mas acaba conseguindo superar seu medo e adentrando a imensidão azul.S.A 4Em uma cena, Zolah retorna a casa da mãe para um lanche. O clima é tenso e ao mesmo tempo extremamente reconfortante e terno. Bolinho de chuva, suco e bolo na mesa. Rosa (Sandra Corveloni), a mãe, confronta o filho sobre o porquê de ele ter saído de casa. Zolah se mantém calado; irritado, mas ao mesmo tempo um pouco triste com aquela situação. A casa é pequena, pintada de branco e com arcos. Eletrodomésticos antigos na cozinha e mobília artesanal, uma casa de praia clássica e nostálgica. Zolah se levanta em direção á um quarto, provavelmente seu na infância. Um quartinho pequeno e aconchegante com uma cama de solteiro. De repente, ele abraça a cama, como quem se protege, e começa a chorar copiosamente. Um sentimento tão puro e tão lindo, que todos conseguimos nos relacionar. Sentimos a dor dele, através daqueles gemidos tristes de alguém que encontra um porto seguro depois de tanto tempo longe de casa.

O elenco gigantesco, em tamanho e talento, serve de cola para todos os aspectos da narrativa, bem como a trilha sonora, que é lidíssima e brilhantemente selecionada, valorizando composições nacionais. E é lindo como, em alguns momentos, apenas vemos as belíssimas atrações circenses, alternadas pelo público fascinado, algo que é mágico e metalinguístico. Quando olhamos aqueles truques e apresentações ficamos hipnotizados pela beleza e magia que contém, assim como quando assistimos a um filme, na tela grande do cinema.

Por Alan Leonel

Sangue Azul ( Brasil, 2015)

Direção : Lírio Ferreira

Roteiro : Lírio Ferreira, Fellipe Barbosa e Sérgio Oliveira

Elenco : Daniel de Oliveira, Caroline Abras, Sandra Coverloni, Rômulo Braga, Matheus Nachtergaele, Milhem Cortaz. Paulo Cesar Pereio

Duração : 114 min.