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O Poderoso Chefão

UMMesmo depois de mais de quatro décadas, O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972), continua soando novo, fresco. Como se tivesse saído agorinha da sala de montagem. E a que se deve todo esse frescor? Bem, para mim, isso pode ser atribuído a diversos fatores que suscitam esse sentimento verídico, original e violento que o cinema dos setenta tinha.

Na obra, todas as ferramentas fílmicas são utilizadas a favor da narrativa, retratando não só o seu universo objetivo, mas a subjetividade dos seus personagens. A luz é uma dessas ferramentas que são usadas com maestria, e dela vem uma das maiores contribuições na retratação da época, lugar e sentimento.

É engraçado como a luz, em O Poderoso Chefão, funciona como uma espécie de exaltação da direção de arte, representando a época em que o filme se passa. A cor da luz, puxada no amarelo, se aproveita da associação que fazemos da luz próxima a essa cor com o antigo. Talvez isso venha dos bulbos de luz primitivos, não tenho certeza, mas de fato funciona e quase todos os interiores remetem a um lugar antigo, como se estivéssemos vendo um filme rodado nos anos 40.DOISA cor funciona, também, para exaltar os tipos italianos dos personagens. A pele aparenta ser mais corada, algo que estabelece aquele universo como um ítalo-americano por excelência, e a máfia como uma herança siciliana. O sentimento antiquado da luz trás um comentário inteligente sobre a natureza daquela organização criminosa. O lugar pode ter mudado, mas as práticas continuam as mesmas.

Para mim, o comentário mais interessante é sobre o arco dramático do protagonista, Michael Corleone. A luz muda, a cada momento do filme, de acordo com o que Michael sente. Essa mudança é uma das várias coisas que impressionam pela beleza e poesia com que são manipuladas. Prestando atenção nesses aspectos enquanto assistia o filme, repetia diversas vezes mentalmente: que filmaço…

Quando Micheal tem os primeiros contatos com a máfia, pouco antes dos assassinatos de Sollozzo e McCluskey, ele é retratado sempre com uma iluminação clara de um lado do rosto e quase que totalmente escura de outro. Isso condiz com o que o personagem sente naquele momento. Michael está divido sobre o seu envolvimento com os negócios; em dúvida se deve adentrar ou não aquele universo. Por isso o rosto fica sempre divido em claro e escuro.

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Já na Sicília, depois dos assassinatos, Michael é retratado com uma luz mais uniforme, porém, sempre com algum contraste. Mesmo afastado da meca da máfia, ele ainda sente a presença dela. Apesar de um pouco mais de paz e de estar mais seguro da sua posição, ainda tem que se proteger e o fantasma da máfia sempre paira ao seu lado.

QuatroQuando Michael volta e assume, de vez, os negócios da família, seu rosto passa a ser quase que uniformemente iluminado, de forma que se pode ver suas expressões com mais clareza. Ele não tem conflitos nem dúvidas sobre o seu envolvimento na máfia. Mais para perto do final, Michael adquire uma sombra característica nos olhos. Mesma iluminação que foi usada para o seu pai, Don Corleone, e que estiliza a figura dos dois, bem como imprime um semblante fantasmagórico e que comenta sobre a natureza impiedosa dos dois Dons. O que é mais forte, porém, é que essa iluminação completa o arco dramático de Michael, que se diz diferente da família, mas, no final, acaba substituindo o pai e se tornando o novo Don Corleone.FINAL CARALHO