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Meu Amigo Hindu

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Acima de qualquer coisa, algo há de ser dito sobre este filme: Ele nasce da autêntica vontade de expressar situações, experiências e medos e isso é uma das fontes mais fortes do cinema. A paixão profunda é algo que queremos compartilhar com outras pessoas; faze-las sentir o que sentimos; viver o que vivemos. E ai reside a estratégia do novo filme de Babenco. Ele parece querer que vejamos a sua história, mas em alguns momentos, ocupemos o seu espaço; e é nesse vai e vem de pontos de vista que a experiência é transposta através da tela.

Por mais nobre que seja o objetivo do cineasta, nunca é alcançado de forma plena. O filme parece ser impulsionado por algumas escolhas, ao mesmo tempo que tropeça a ponto de cair em outras, como numa eterna corda bamba; De maneira que os momentos de maior sensibilidade (que são muitos!) cedem diante dos, também muitos, escorregos; que não só retiram profundidade como fazem, até, que se questione a veracidade do que acontece na tela.

O mais óbvio e grave dos problemas é a atuação. Com exceção de Willem Dafoe, o elenco atravessa o filme como um carro em estrada esburacada, instável e sempre jogando os espectadores para fora. Tudo soa como direto do roteiro; como se os atores tivessem lido seus diálogos e se esforçado para repeti-los. O ritmo, é claro, se prejudica por essa mecanicidade (amplificado pela montagem que, estranhamente, privilegia a tortuosidade do tempo); Algumas coisas parecem corridas e simplesmente fora do lugar. E não me refiro aqui as propositais quebras de ritmo, mas sim do tempo entre os diálogos, expressões e interações.

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O fato do filme ser todo falado em inglês amplifica ainda mais essa deficiência. Nenhum dos atores brasileiros sabe falar a língua fluentemente; isto além de não fazer sentido na história é mais uma barreira para que eles se expressem. É naturalmente difícil comunicar-se como se deseja em uma língua não nativa; não saber o que a palavra significa, com 100% de certeza, compromete o entendimento do personagem e a relação adequada de significados entre os gestos que se pretendem. Em termos diegéticos, a história se passa no Brasil e os personagens tem nomes nacionais, mas apenas o protagonista fala inglês fluentemente; os outros falam a língua com sotaque brasileiro, o que é normal, mas não faz sentido algum dentro daquele universo.

Dito isso, a segunda metade evolui consideravelmente. Nela, a presença majoritária é de Dafoe; logo, o ritmo e a insegurança geral são, pelo menos em parte, anuladas e o filme pode despontar como o que se propõe. A jornada rumo a cura é insipiente; o que há de mais belo é a valorização da vida através dessa jornada; não só a forma que os pequenos atos ganham valor, mas a enorme euforia de ter se livrado da doença.

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As inseguranças de Diego são fortes e permanentes. É fácil para qualquer homem se identificar com os anseios e medos de Babenco (o filme é biografia de uma parte da sua vida). A pulsão sexual parece ser movida mais pelo medo da solidão e da morte que de qualquer outra coisa; e quando o protagonista vai até uma garota de programa, claramente no intuito de fazer passar a dor, se encontra com uma ainda maior quando percebe, depois do ato, que está sozinho. Tenho certeza que uma grande quantidade de homens já sentiram tal coisa e conseguem se identificar com isso.

A versatilidade de significados é expressa de maneira simples, retratando sempre um homem em conflito através das sempre agressivas sombras que o consomem. A luz em demasia, porém, é sempre presente; como a escuridão, ela o consome, mas de maneira mais esperançosa e positiva, no geral. O excesso, parece retratar a alegria; a mínima euforia que se expressa nos momentos mais felizes, apesar das enfermidades. O bonito contraste entre esses opostos grita agonia, desespero e solidão, mas também as pequenas felicidades em meio a tanta dor e a enorme e simples euforia de se saber que está vivo. Através da luz, vemos nascer a beleza em meio a miséria; como uma flor de lótus que nasce em meio a lama. 

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Meu Amigo Hindu (My Hindu Friend, BRA, 2016)

 

Diretor: Hector Babenco

Elenco: Willem Dafoe, Maria Fernanda Cândido, Barbara Paz, Selton Mello, Guilherme Weber, Reynaldo Gianecchini…

Roteiro: Hector Babenco

Diretor de fotografia: Mauro Pinheiro Jr.

Adeus à Linguagem

Ah DieuxO mais novo filme de Jean-Luc Godard é uma bomba. No melhor e mais agressivo sentido da palavra. Adeus à Linguagem é tanto um poema quanto uma exploração formal da linguagem cinematográfica, não só das mais tradicionais e mais assentadas formas que o cineasta francês já vem fazendo tremer nas bases há várias décadas, mas o mais recente artifício (não está sendo usado pela primeira vez, mas está sendo muito usado atualmente) que é manejado como se fosse um daqueles jogos de troca de roupas online, tamanho o domínio do cineasta. O 3D é testado em quase todas as suas possibilidades e arranjos, brilhantemente, por um homem que dedicou sua vida ao cinema.

Apenas o fato de podermos testemunhar uma obra dessas é um privilégio, necessário dizer. Portanto, assista ao filme, independente do que lhe foi dito ou do que você leu. Este senhor tem mais de meio século de cinema, devotou sua vida a esta arte fazendo filmes extremamente difíceis e nada seguros financeiramente e/ou artisticamente. Colocando em jogo sua reputação em cada filme em uma aposta que, para o cinema, não tinha, não tem e nunca terá como dar errado.
Cachorro em metroEm comum com seus outros filmes este traz um desligamento forçado do espectador a narrativa por meio da negação de eventos que fariam o filme “caminhar para frente” e recursos estilísticos que puxam o espectador para fora. Entre os tradicionalmente utilizados por este cineasta, como o diálogo dessincronizado, a montagem propositalmente “fora de ritmo” e a música fragmentada, está o mais novo e inovador aspecto deste filme: o uso do 3D em ocasiões diferentes e em arranjos complexos, de forma que este recurso se encontrava em um patamar antes deste filme e agora está em outro, muito mais conhecido, como se Adeus à Linguagem fosse um estudo científico em que Godard está para o 3D como Newton está para a gravidade.

Os personagens são quase os mesmos, mas a história de um casal (não sei se é um casal de duas ou três pessoas) que tem uma relação estranha, mas ao mesmo tempo essencialmente humana e o cachorro que sempre está andando a uma direção desconhecida viram uma série de símbolos que se convertem em um barato audiovisual, como se o espectador sonhasse de olhos abertos. O homem (Kamel Abdelli ou Richard Chevallier) e a mulher (algumas vezes Héloïse Godet, outras Zoé Bruneau) compartilham de uma solidão profunda e uma busca existencial de algo que os complete, de alguma forma. Em um certo momento, a personagem de Zoé encontra um homem e, naquele momento, pareceu achar que a relação dos dois a preencheria. Mas, tanto os homens quanto ás mulheres parecem nunca estarem completos; sempre em busca de algo que nunca sabem, eles estão sempre a se locomover, de alguma forma, de um lugar a outro.

Os planos mais poéticos como um em que crianças correm em um campo verde e alguns que demonstram o painel de um carro na noite e um limpador de para brisas mecânico indo e vindo, parecem refletir essa busca. Qualquer pessoa que já dirigiu á noite consegue se relacionar com esses planos e entender, pelo menos em algum nível, a provável solidão que aqueles personagens experimentam.

carroO 3D, nestas cenas, se manifesta em uma coloração exacerbada. Uma parcela da imagem fica supersaturada. Na maioria do filme, este recurso é utilizado para causar um leve desconforto no espectador, através de imagens demasiadamente separadas e/ou profundidade de campo reduzida (o quanto enxergamos) que causam desconforto, como se nós estivéssemos passando pelos mesmos sentimentos dos personagens. Dessa forma, quando a tela fica preta ou uma imagem agradável é exibida sentimos um conforto quase etéreo, algo que aqueles personagens parecem estar experimentando; um vai e vem sentimental doloroso.CriançasDas formas em que o 3D é utilizado, uma em especial me chamou a atenção. Há um momento em que Godard emprega uma imagem que, não tenho certeza, me parece ter sido resultado da sobreposição de outras duas imagens, de forma que se cria um efeito novo e interessante. Com os dois olhos abertos vemos as duas imagens sobrepostas, com o olho direito aberto vemos a imagem à direita e com apenas o esquerdo, a imagem à esquerda. Por alguns minutos o espectador escolhe a forma de assistir ao filme. Um nível de interatividade nunca antes visto no cinema, que aproxima este meio do vídeo game e tem um potencial enorme, ainda não tão explorado, para ser aplicado. Ao final da projeção me encontrava em choque. Algo surpreendente e esperado ao mesmo tempo. Poderia ser diferente, vindo de um homem que viveu e vive em função do cinema?Exposição

                                                                                 

                                                         Adieu Godard

(quando questionado sobre o significado de “Adieu”, em entrevista, afirmou que no francês da Suiça, a palavra pode significar tanto Olá como Adeus)

Por Alan Leonel

Adeus à Linguagem (Adieu au Langage, França, Suiça, 2015)

Direção : Jean-Luc Godard

Roteiro : Jean-Luc Godard

Elenco :  Héloïse Godet, Kamel Abdeli, Richard Chevallier, Zoé Bruneau…

Duração : 70 min.

Sangue Azul

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Há algo de mágico e sensual em ver um grupo erguendo um circo, em que, horas depois, performarão seus números em frente a uma plateia. O que acontece naquela ilhazinha sempre é cercado de uma aura mística, nostálgica e ao mesmo tempo amarga. Quase como se o filme quisesse nos dizer algo sobre aqueles personagens, mas o que tem a dizer é tão complicado e ramificado, que precisa dar voltas poéticas ao redor da nossa percepção, de um jeito que ficamos hipnotizados observando esse movimento.

Guardada as devidas proporções, Sangue azul tem as características que se espera de um filme de Fellini ou Renoir, talvez, um pouco dos dois. Despertando tanto as emoções mais simples e passageiras, dessa forma nunca ficando monótono, mas também aquelas mais complexas e mágicas, as quais a descrição com palavras se torna difícil.

As imagens do filme possuem uma qualidade etérea, o que torna difícil desgrudar o olho da tela por um segundo sequer. Em um momento vemos Zolah (Daniel de Oliveira) e Raquel (Caroline Abras) mergulhando na imensidão do mar, passeando pelo seu infinito azul de pedras e peixes, no que é um dos elementos recorrentes do longa. O mar é uma metáfora para o interior de Zolah e suas origens. Uma questão mal resolvida que ele se recusa a enfrentar. Dessa forma é interessante reparar como o protagonista tem medo do oceano e se recusa a adentra-lo, algo que remete não só a ilha e um medo de encara-la, mas a relação com a sua mãe, que é simbolizada pela água quente, confortável e que é o ambiente de morada dos bebês antes de nascer.Sangue azul 3E mesmo que essa associação não seja tão fresca desde 8½ (Fellini), no filme funciona, majoritariamente, porque há uma série de consequências e outras questões atreladas a ela. Não só o protagonista tenta contornar esses problemas com sexo, drogas e álcool, mas chega até a adotar Zolah como nome, em função do original, Pedro. E isso é bastante revelador do seu psicológico. Não só muda de nome para cortar qualquer laço que tinha com a sua ilha natal, mas utiliza um nome cosmopolita, que sugere um cidadão do mundo, alguém que, como nos é revelado em um ponto do filme, viaja por diversos lugares passando por diversos países e conhecendo diversas pessoas, talvez, tentando substituir suas ligações antigas e duradouras por outras mais curtas e efêmeras.

Dessa maneira é engraçado perceber que o circo age como uma espécie de incitador da história, forçando Zolah a voltar para a ilha, que age como um purgatório, lugar onde ele será obrigado a resolver seus conflitos passados; pagar seus pecados. Esse caminho se assemelha a uma jornada, já que vemos o protagonista evoluindo cada vez mais em relação a resolução dos seus dilemas. Aqui, a água tem um grande papel nesse senso de um longo trajeto a ser percorrido. Zolah inicia com pavor da profundidade do mar, mas acaba conseguindo superar seu medo e adentrando a imensidão azul.S.A 4Em uma cena, Zolah retorna a casa da mãe para um lanche. O clima é tenso e ao mesmo tempo extremamente reconfortante e terno. Bolinho de chuva, suco e bolo na mesa. Rosa (Sandra Corveloni), a mãe, confronta o filho sobre o porquê de ele ter saído de casa. Zolah se mantém calado; irritado, mas ao mesmo tempo um pouco triste com aquela situação. A casa é pequena, pintada de branco e com arcos. Eletrodomésticos antigos na cozinha e mobília artesanal, uma casa de praia clássica e nostálgica. Zolah se levanta em direção á um quarto, provavelmente seu na infância. Um quartinho pequeno e aconchegante com uma cama de solteiro. De repente, ele abraça a cama, como quem se protege, e começa a chorar copiosamente. Um sentimento tão puro e tão lindo, que todos conseguimos nos relacionar. Sentimos a dor dele, através daqueles gemidos tristes de alguém que encontra um porto seguro depois de tanto tempo longe de casa.

O elenco gigantesco, em tamanho e talento, serve de cola para todos os aspectos da narrativa, bem como a trilha sonora, que é lidíssima e brilhantemente selecionada, valorizando composições nacionais. E é lindo como, em alguns momentos, apenas vemos as belíssimas atrações circenses, alternadas pelo público fascinado, algo que é mágico e metalinguístico. Quando olhamos aqueles truques e apresentações ficamos hipnotizados pela beleza e magia que contém, assim como quando assistimos a um filme, na tela grande do cinema.

Por Alan Leonel

Sangue Azul ( Brasil, 2015)

Direção : Lírio Ferreira

Roteiro : Lírio Ferreira, Fellipe Barbosa e Sérgio Oliveira

Elenco : Daniel de Oliveira, Caroline Abras, Sandra Coverloni, Rômulo Braga, Matheus Nachtergaele, Milhem Cortaz. Paulo Cesar Pereio

Duração : 114 min.