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Procura Insaciável

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Um dos trabalhos mais originais de Milos Forman nos EUA. O primeiro filme do Tcheco no país parece embalsamar pelo menos uma parte do espírito da juventude daquela época (anos 60) e a incompreensão geral da sociedade com o que acontecia ali. Uma espécie de confusão generalizada sobre si mesmo; o que parece óbvio para nós hoje, olhando de fora, contado por quem estava de dentro, trás consigo uma espécie de melancolia; desespero em relação a algo que parecia indecifrável.

Essa sensação de confusão parece vinda, em grande parte, da ordem imprevisível em que as imagens aparecem, em algumas ocasiões. A grande sequência de testes de canto é justaposta a busca dos pais pela sua filha que, supostamente sumiu (em alguns momentos me pareceu que a menina está em casa e os pais só acharam que ela foi embora). Não apenas confusão espacial ou temporal, mas isto cria um sentimento estranhamente engraçado; absurdo, já que, por fora, aquelas imagens não parecem ter nada haver umas com as outras.

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É claro que, ao decorrer do filme, pelo menos para mim, foi ficando um pouco mais claro a relação criada com o embate entre as imagens. Soa mais como um comentário sobre a natureza daquelas pessoas; pais e filhos. Afinal, não são tão diferentes assim. Em alguns momentos buscam por prazeres e diversão, em outros, apenas um momento de paz e solidão; em silêncio.

Os pais buscam entender seus filhos, mas ao passar do tempo fica claro para quem os assiste, que eles são incapazes; já que perderam o entendimento até em relação a si mesmo. Já não há intimidade ou amor profundo no casamento; nem uma conversa sincera. Pelo lado dos filhos parece haver uma vontade muito grande de não compartilhar o que sentem; Além disso também parecem, as vezes, perdidos em relação a sua consciência. Como se houvesse um descompasso entre o seu interior e a sua capacidade de se expressar. Como se seus sentimentos fossem água e a mangueira que a expele é muito fina para o líquido sair.

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Essa confusão na ordem dos acontecimentos é reforçada pelo tempo dos cortes. A montagem, sempre rápida, ás vezes se aproxima de um piscar de olhos; mal dando tempo de reconhecer o que aparece na tela. A história, claro, parece se dissolver; e o que fica é o humor provocado pelas reações dos personagens, produzidas pelo elenco maravilhoso (Buck Henry é um dos rostos mais engraçados que já vi em tela; Lynn Carlin Também, além de ter um dos sorrisos mais graciosos).

Neste sentido, Forman e o montador (John Carter) brincam com a continuidade; a relação entre uma imagem e outra. Olhares são trocados entre imagens que acontecem em lugares e tempos diferentes, criando um humor visual estranho e hilário. As próprias transições entre as cenas são fonte deste tipo de humor, inesperado; como quando Lynn dança bêbada num quarto de hotel e o próximo plano é um grupo aplaudindo, numa convenção em outro lugar.

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Além desse ritmo próprio e um certo deslocamento causado pela velocidade que as imagens aparecem; há também uma sentimento de desorientação, já que algumas das passagens com algum tipo de humor acontecem em planos ininterruptos; sem cortes. Onde há algumas passagens rápidas é nas interações que fazem a história ir para frente. O ritmo vai e vem como uma onda e os aspectos se aglomeram num resultado estranho e único.

Talvez o mais interessante disso tudo é como algumas passagens são dolorosas. No sentido de revelar verdades feias sobre o descompasso entre as gerações. É um riso estranho. Procura insaciável é um daqueles filmes que, como realizador, tem de se assistir de tempos em tempos; talvez quando alguém se sinta triste ou desencorajado. Ver filmes tão diferentes e com tanta audácia faz com que se queira ser audacioso(a) e dá energias para tentar algo novo.

 

Taking Off (Procura Insaciável, EUA, 1971)

 

Direção: Milos Forman

Fotografia: Miroslav Ondricek

Roteiro: Milos Forman, John Guare, Jean-Claude Carrière, John Klein

Montagem: John Carter

Elenco: Buck Henry, Lynn Carlin, David Gittler…

Duração: 93 min.