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XII Panorama Internacional Coisa de Cinema – Segundo dia (10/11/2016)

Minotauro – Viagem ao Labirinto do Corpo

Uma peça instigante sobre o desenvolvimento humano. As etapas, do nascimento a morte, são retratadas como fases de videogame, onde o jogador pode abandonar ou continuar o jogo após sofrer um forte baque. As fases são, na verdade, performances artísticas que parecem simbolizar não só a natureza humana, numa progressão; sua fertilidade, vitalidade e a mais profunda sombra de angústia, medo e dor, representadas pela performance de uma criatura horripilante; dotada de máscara, chifres e espinhos nas costas.

Parece Pouco implementar os símbolos vindos do Videogame. Além de súbitos incrementos no ritmo e a metáfora central do Game over (Jogo encerrado), que se assimila a alguns momentos da vida de qualquer pessoa, soam como enfeites de modernidade mais fraca possível. Onde se entope de símbolos relacionados com um ideal de Juventude; algum produto, e se espera uma identificação, por parte do público.

Não passa de um filme sobre a vida. Tendo sim um mérito por alcançar isso de forma eficientes; pelas performances e motivos recorrentes. Sendo um filme simples e enfeitado sobre a experiência da vida.

Diretor(a): Leonardo França

A Cadeira de Balanço

Também um filme interessante, mas que poderia encerrar-se com essa descrição apenas. Sendo ele minimamente especial, simplesmente por ter uma migalha (estou sendo generoso aqui) de experimento formal.

Somos, durante maior parte do filme, aquilo que nos causa maior tensão. O objeto ou pessoa que chega na casa de um casal; implantado em uma espécie de aparelho que se assemelha a um micro-ondas. Um homem, ao lado da sua esposa, observam atentamente a esta coisa; o homem, porém, parece mais perturbado e envolvido. Nós, que ocupamos o lugar deste elemento perturbador; subjetivamente, não o observamos. E a tensão vem daí; de querer saber o que é esta coisa.

Paralelo a isso, tem-se os temas da maternidade, paternidade, distanciamento nos relacionamentos; pairando. Este conteúdo é organizado de forma simples, porém.

Um exercício eficiente de gênero. No que almeja, muito pouco, alcança com êxito.

Diretor(a): Fernanda Fontes Vareille

 

Ridículos

Com filmes como este há de se ter cuidado, pois de um lado são propostas interessantes; diversas; com variedade de estilos e formas. Uma maneira diferente de se realizar dentro do panorama, especialmente o baiano, de cinema.

Por outro são filmes com blocos de conceitos e formas extremamente repetidos de maneira a, dentro da sua variedade, criar uma monotonia quase que insuportável, e alterna momentos de força muito pequena, com algumas pérolas de muitas qualidades.

O filme parece ser uma espécie de cinema direto onde se capta uma entrevista de um candidato a uma vaga num grupo de palhaços; alternado a isso, as performances dos palhaços. A combinação desses estilos é feita; o suposto cinema direto (onde se pode ver câmeras e operadores de som, simulando uma situação real) e o cinema mais performático; câmera parada; tableau, onde, num plano mais aberto, vemos os palhaços pintarem e bordarem. A primeira muito mais interessante, já que se baseia na interação das pessoas, algo que forma uma base sólida capaz de ser fonte de dinamicidade constante.

A isto atribuo a interação dos indivíduos, todos de personalidade única; forte; rostos expressivos e condução das situações sempre de maneira a adicionar alguma novidade, de alguma forma.

As palhaçadas, ao contrário disso, são fontes recorrentes de repetição. O tipo de humor é o mesmo; físico. E sempre relacionado a mesma fonte; o desengonço dos palhaços, e de forma linear e única, sem adição de outras situações paralelas, e organizadas em estrutura repetitiva. Uma interação entre os indivíduos na entrevista é sempre seguida por uma performance. Dito isso, é como se assistíssemos uma pessoa levanto uma torta na cara cem vezes. Nas primeiras três, ri-se; nas noventa e sete seguintes, a reação é a mesma. De indiferença. Pelo menos para mim foi assim.

Entre algumas dessas interações, há momentos que tocam; para além do rir, se aproximando da natureza da performance, algo que é, em essência, agridoce; dual. A cena do corte do cabelo e da dança da palhaça comendo banana se enquadram ai.

Uma pena que quando se adentra perto da metade do filme, as performances mais repetitivas tornam-se excruciantes e acabam por obscurecer as partes mais interessantes.

Diretor(a): Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge

Confidente

A atmosfera da memória, em confidente, é constante. Por meio de filmes de arquivo de épocas que remetem ao inconsciente coletivo Brasileiro da infância (anos 40, 50, 60); uma nostalgia que temos dessas épocas que guardam um espaço especial na memória do povo deste país; cria-se uma atmosfera que captura uma parte desse sentimento.

Pena que o filme traz os vícios mais rasteiros do atual cinema experimental brasileiro. São rasteiros por que, se é filme experimental, tem de experimentar; e para mim, copiar a forma, por ela estar em uso constante, é a antítese do filme experimental e sinal de preguiça e mediocridade.

Então, muito do valor conseguido com os filmes de arquivo sobrepostas e o tema interessante, é deletado por uma narração absolutamente genérica e a montagem que repete imagens iguais, uma atrás da outra, muito rapidamente; forma que, se fosse maçã, já teria caído de podre, dentro do panorama atual.

Diretor(a): Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes

Interdito

Um experimento bastante interessante e esteticamente belíssimo. Num plano único; estático, vemos um casal se aproximando, se abraçando e se beijando. No ínterim, um dos membros do casal ascende e apaga um isqueiro que, nas condições de uma praia escura, brilha em flash, se assemelhando a um farol.

Dessa maneira, pode-se interpretar como uma simples metáfora para a volubilidade das relações; mas o filme rapidamente se expande para além disso. A belíssima imagem do mar a noite; com quase nenhuma luz artificial (algo que, como realizador, gostaria de fazer diga-se de passagem); sombria e solitária; dá contornos da vulnerabilidade humana, misticismo e vaidade. Funciona como as sombras, no cinema Noir.

É incrível como alguns elementos trazem um turbilhão de significados e expandem um tema ou história de forma exponencial.

Diretor(a): Leon Sampaio

 

Cinema Novo

“Sou caçador de nuvens. Já fui caçado por tempestades”

A frase do eterno Presidente da câmera Federal e presidente da constituinte, Ulysses Guimarães é uma perfeita descrição do Cinema Novo; movimento cinematográfico brasileiro dos anos 60 e 70; examinado criativamente, com tons informativos e, majoritariamente poéticos, pelo documentário com o mesmo nome do movimento: “Cinema Novo”.

Sempre perseguidos; reféns de uma situação; mas dotados do amor mais profundo, os cineastas eram como heróis, assassinado um dragão a cada dia. Mesmo assim e, a partir disso, criaram filmes diversos, mas com pontos, imagens e temas que os uniam dentro da sua diferença.

É a partir deste viés que Eryk Rocha parece querer desbravar este movimento. A partir do seu “espírito comum”. Certamente é bastante exitoso, já que por isso só o filme já consegue atrair bastante, visto que a semelhança entre filmes diferentes é assustadora, e é fonte de atenção a todo tempo, dado o quão parecidas são as várias imagens e maneiras de retratar um gesto ou assunto.

As pessoas sempre parecem correr de algo ou utilizar da violência mais brutal umas com as outras. O mar, também, parece ser recorrente como símbolo da vontade de ir embora, ou da nostalgia de tempos que não voltam mais. Coisas que são recorrentes no Cinema Brasileiro.

Em meio a isso, há uma camada informativa de valor muito grande, onde se vê os realizadores falando de seus filmes e do seu cinema. Discutindo, cada um com o seu ponto de vista, sobre o panorama de cinema a época, histórias, estilos e o que pensavam a àquela altura sobre o cinema Brasileiro. Dessa maneira, percebe-se características do movimento que de outra maneira não seria possível perceber. A forma como o cinema novo foi fruto de um impulso de alguns indivíduos, da conjuntura socioeconômica brasileira dos anos 60 e de um “Vazio cinematográfico”, como chama Joaquim Pedro de Andrade, existente no Brasil, por exemplo. Isto quando se diz respeito ao cinema que se aproxima mais dos exteriores e, portanto, da realidade brasileira. Também, e não menos importante, que o cinema novo foi pioneiro entre o cinema moderno ao redor do mundo e, não só isso, criou uma própria forma; orgânica e absolutamente brasileira; mais pujante em expoentes como Glauber Rocha.

Tudo isso é grudado por um ritmo estável e relativamente rápido; além de forte, pois contrapõe imagens similares criando embates que fortalecem o aspecto da semelhança entre os filmes e ligam o cinema de diferentes realizadores e até de diferentes épocas, em um discurso que busca a evolução não só do cinema brasileiro, mas de seus temas, forma, histórias e modelo de produção.

Diretor(a): Eryk Rocha

XII Panorama Internacional Coisa de Cinema – Primeiro Dia (09/11/2016)

Pequeno aviso antes do texto do único filme visto hoje e um dos três que abre o XII Panorama Internacional Coisa de Cinema:

Nos dias seguintes, até o dia 16/11/2016, irei cobrir o festival escrevendo pequenos textos sobre os filmes assistidos nele. Então fiquem ligados no blog pra ler sobre filmes recentes e clássicos do cinema Nacional e Internacional.

E se você for de Salvador, não deixe de conhecer o festival; os preços são baratos, a variedade é relativamente grande e os filmes são relevantes. Também, a equipe tem o esforço de projetar alguns filmes em 35 mm; o que é algo muito raro atualmente e um privilégio poder assistir um filme neste formato.

“Polícia é polícia; bandído é bandido”

É com essa frase que se pode definir o filme de Hector Babenco. Lúcio Flávio, o Passageiro da agonia; um dos que abre o XII Panorama Internacional Coisa de Cinema, exibido em 35 mm, carregando toda a energia, toque e transparência que este formato permite . A escolha deste filme é forte, e traz como característica a vitalidade, leveza e força de Babenco e dá época em que ele foi realizado.

A polícia fica no centro. O bandido também. E sobre essas duas figuras o filme não parece fazer distinção. Embora, formalmente estejam em campos opostos; na prática, agem do mesmo lado e numa linha muito fina, caminhando de mãos dadas; um tentando derrubar o outro, mas com essa prática acabam, sem querer, realizando o equilíbrio tão necessário para chegar ao outro lado. Embora, eventualmente, quase caiam vez ou outra.

Este outro lado é o dinheiro. Grana. O meio imaterial para a tão sonhada escalada; subir na vida. Ser chefe e não ser um “Pé de chinelo”, como dito várias vezes por Lúcio Flavio. Esta parece ser a sua “Agonia”; e não as intermináveis torturas a qual é submetido, que ele encara como rotina.

Rotina parece ser a palavra chave neste filme. Assim como em Alemanha ano 0 e rigorosamente todo neorrealismo italiano, a cidade reflete os objetivos. Ambos visam o mesmo fim, mas com causas diferentes. Na Itália de Rosselini; a guerra. No Brasil de Babenco, a desigualdade. Paralelamente, a câmera parece passear da mesma maneira, como se os olhos fossem similares; os movimentos panorâmicos de Babenco são semelhantes, percorrem a cidade em alta velocidade, numa realidade que não se pode registrar adequadamente. E o famoso Dolly que se afasta de uma mulher correndo na direção da câmera é replicado; ao invés de “Francesco! Francesco!” temos “Lúcio! Lúcio!”. Aparentando, então, fins similares.

Também no objetivo de simplesmente querer acompanhar pessoas, Babenco cruza com o cinema italiano dos anos 40. Se de um lado vemos a força nos temas, de outro a leveza na hora de contar a história; o estilo quase que desaparece e não há objetivos; apenas a rotina de algumas pessoas e quando elas morrem (isso não é Spoiler); a morte é mais forte e dura, e os intermináveis pesadelos de Lúcio Flávio, que são conduzidos magnificamente sem alteração de nenhuma natureza; como vida real; parecem ainda mais verdadeiros.

Escondidos; discretos e ao mesmo tempo explosivos; baderneiros. É a gangue de Lúcio Flávio e, também é o cinema de Babenco. Uma junção inesperada e estranha, que traz as duras camadas da realidade envoltas em linho macio. Uma excelente escolha da curadoria e direção do XII Panorama Internacional Coisa de Cinema, para se relembrar uma grande obra, um grande cineasta, pensar no Brasil e pensar no cinema Brasileiro.

Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (Brasil, 1977)

Direção : Hector Babenco

Roteiro : Hector Babenco, Jorge Durán e José Louzeiro

Elenco : Reginaldo Faria, Ana Maria Magalhães, Grande Otelo, Ivan Cândido, Lady Francisco…

Fotografia : Lauro Escorel

Montagem : Silvio Renoldi

Aquarius Crítica

Cobertura do Festival de Cannes

AQUARIUS

Tudo o que foi dito sobre Aquarius (excluindo as insanidades e implicâncias com o cineasta), filme mais recente de Kleber Mendonça Filho, e único Brasileiro na seleção oficial de longas-metragens; parece ser verdade, de uma forma ou outra. Um grande filme, parece causar uma espécie de frenesi de interpretações, e todas elas contém algum grau de verdade. E que Aquarius é um grande filme, acho que ninguém que o assistiu pode negar.

Se olharmos bem no fundo dos olhos desta obra veremos que o que há, na essência, é um filme apaixonado. Um amor profundo da memória do nosso povo; a nostalgia coletiva do povo brasileiro. E é sobre isso que o filme parece tratar; e de fato o faz com muito carinho. Ai, para mim, reside um dos grandes fatores que fizeram com que ele não fosse premiado em nenhuma categoria, no festival de Cannes. Um filme feito por brasileiros, para brasileiros e sobre brasileiros; algo que, ao chegar nos olhos de um estrangeiro destas terras, parece um pouco confuso; não tão forte e talvez um pouco fora de tom.

Não que o filme precise ganhar algo neste festival. Cannes já demonstrou muitas vezes seu conservadorismo em edições passadas, no que diz respeito a forma, principalmente. E, nesse sentido, o filme já tem um enorme feito; que é a sua presença na seleção oficial, coisa que não acontecia a um filme brasileiro a alguns anos.

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O cinema de Kleber Mendonça Filho, se apresenta como a flor da pele. Tudo parece querer pulsar para fora da tela, como um floco de milho que vira pipoca. Além de uma paixão melancólica e muito forte, há uma tensão intensa que vêm de todos os lados; uma mistura de um amor muito grande pelas coisas que são genuinamente nossas e, ao mesmo tempo, um enorme impasse que vem, também, de relações muito peculiares entre as pessoas. Relações que existem, na sua forma, apenas no Brasil e que todas essas coisas, relações e pessoas estão interligadas em uma grande rede.

Por este caminho, Kleber domina não só a linguagem do cinema, aquela clássica e a mais contemporânea, mas faz um caldeirão de gêneros. O terror misturado com a ação, filme de crime e faroeste. O cineasta se utiliza das convenções dos gêneros de acordo com o que quer retirar de quem o assiste. No cinema de Kleber, tanto neste, como em O Som ao Redor, não há limites ou fronteiras, tudo se mistura, e o critério parece ser, neste filme, o de arrancar os medos e amores, que são nossos. Brasileiros.

Isto, parece ser a grande batalha da protagonista, Clara. Uma mulher que luta pelas suas memórias, pelo afeto que mantém sobre as coisas que fizeram e são parte da sua história. Os vinis, os móveis e o próprio apartamento no edifício Aquarius, que foi palco de grande parte dos acontecimentos da sua vida. Uma personagem forte; de garra, trazida com força e humanidades ímpares por uma das maiores atrizes brasileiras em atividade, Sonia Braga. Uma mulher que se recusa a entregar aquilo que há de mais valioso neste mundo para ela

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É engraçado, como as memórias boas e ruins se misturam até ficarem indissociáveis. As duas, revelam diversas faces da natureza estrutural da cidade do Recife, que podem ser ampliadas, muitas vezes, para o Brasil. O coronelismo, rixas entre famílias diferentes e dentro das próprias famílias; a “cordialidade”; tudo se apresenta junto e parecem ser, como são apresentadas, duas faces da mesma moeda. A memória, traz consigo um lado bom e um lado ruim.

De toda esta linguagem, o que chama mais atenção, e que talvez se possa dizer, é o resumo deste cinema, é o uso do Zoom; movimento aproximar e afastar através da lente. Kleber é o Robert Altman brasileiro; talvez ainda mais forte que ele; não só no sentido de dominar essa técnica, mas de usa-la como uma forte ferramenta de expressar o que quer. O vai e vem das lentes, as vezes de maneira imensamente rápida e violenta, é de tirar o fôlego. Deslocam com brutalidade; retiram da zona de conforto. Trazem de uma realidade a outra, de um espaço a outro; do amor ao ódio.

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Da parte do amor, a música resgata a maior parte deste sentimento, me pareceu. Aliada fortemente a memória e a nostalgia que é muito particular as pessoas que vivem neste pais, todas elas parecem guardar um pouco da essência das nossas relações e de nós mesmos. Algumas das músicas, tanto na letra quanto na melodia, resgatam o lado mais carinhoso destas lembranças. “Eu passei muito tempo aprendendo a beijar outros homens; como beijo meu pai…”, quando cantado por Gilberto Gil; causa arrepios e lágrimas das experiências de cada um dos personagens; quando, na cena em que aparece, todos param o que estão fazendo para ouvir a música. E todos parecem lembrar de algum momento que faz amargar o coração por aquilo já ter passado; por ser memória e não poder voltar mais. Como são as coisas na vida.

Kleber traz com este filme, um grande refresco para o cinema brasileiro. Certamente será um dos filmes mais elegantemente diferentes do ano e tão importante, visto a falta de risco tomado por uma grande maioria de filmes que passam, recentemente, pelo circuito comercial. Se lhe aconselharem a não assistir este filme, qualquer que seja a razão, ignore; não faça isso. Mesmo que não goste depois, esse filme merece mais; merece que o assistam, mesmo que para dizerem mal dele.

Aquarius (Brasil, 2016)

Direção: Kleber Mendonça

Roteiro: Kleber Mendonça Filho

Direção de Fotografia: Pedro Sotero e Fabricio Tadeu

Direção de Arte: Juliano Dornelles e Thales Junqueira

Produção: Emilie Lesclaux, Saïd Ben Saïd e Michel Merkt

 

Festival de Cannes, Primeiro Dia

Apesar do festival ter iniciado desde o dia 11 de maio, os participantes do ShortFilmCorner (esquina dos filmes), que é a categoria do meu filme Domingo, tiveram acesso ao festival apenas a partir do dia 16, quando foi aberto um espaço do festival para esta categoria.

Neste dia, além de conhecer boa parte dos meus conterrâneos e companheiros de categoria lá, assisti a três filmes e conheci um pouco mais do festival. A primeira impressão foi forte; visto que nunca estive no festival de Cannes, e a escala, jeitos, tamanhos e costumes me impressionaram.

Tudo dentro do festival é muito grande. O luxo é desnorteador, de maneira que é fácil se perder nisso, ainda mais se esta for a sua primeira vez no festival. A infraestrutura chama atenção para si mesma; e as companhias que as fornecem, parecem compartilhar um pouco do ideal do festival de Cannes; o diferencial, “produto de arte”, o bem acabado, etc… As logomarcas são estampadas por vários espaços do festival, corredores, paredes… lugares por onde passa muita gente. Nespresso, Renault, HP, etc…

Entre enormes estandes de companhias de cinema, agentes de compra e venda de filmes e pessoas notórias transitando; é possível se perder e sentir-se sem rumo. Num primeiro olhar, isto parece uma vantagem, um local fácil para vender os filmes. E de certa forma é; talvez não no meu caso, que vim com um curta metragem experimental, mas talvez para quem tem um longa rodado, realizado ou mesmo um projeto de longa metragem já todo idealizado. É algo que gostaria de tentar no ano que vem, se for ao festival com meu segundo curta metragem, o melhor dia do ano; que já foi todo rodado.

O que mais me chamou atenção, porém, foram duas situações que revelam um pouco mais afundo sobre o que é este festival.

A primeira é bastante caricata, mas bastante real. É possível avistar, 80% do tempo em que se transita pelas ruas próximas ao festival (que são muitas), pessoas carregando placas e papéis com súplicas por ingressos de premières; coisa que é necessária caso alguém não tenha credencial e queira assistir aos filmes. Alguns chegam a ser tragicômicos, apelando para o lado mais emocional, oferecendo abraços e beijos, e despertando, pelo menos em mim, pena desses indivíduos que ficam horas e horas em pé sem muito o que fazer.

A segunda situação, acontece apenas em uma faixa de horário. Mais por volta das 16:00-18:00, quando as primeiras pessoas bastante famosas começam a chegar (elas entram em carros de janela fumê e pelo tapete vermelho). Pessoas como Mel Gibson, Kristen Stewart e Woody Allen. Há sempre um enorme aglomerado de gente em frente a região em que ficam esses famosos, de forma que em horário de pico é perto do impossível transitar por ali (eu, sem saber disto num dos primeiros dias, consegui atravessar esse mar de gente, após centenas de “Excuse me” e “Pardon”).

Essas situações sempre causavam em mim uma espécie de epifania sobre a natureza do festival. Parece que Cannes tem mais haver com prestígio e a parte mais comercial, centrada nas figuras das estrelas, e cada vez mais menos com cinema. Mesmo que o festival tente se vender como um de elegância diferenciada, mais específica e refinada que Hollywood; dentro disso, Cannes parece ter criado seu próprio nicho; sua versão do sistema de estrelas, centrado em um padrão de filmes, atores, atrizes, diretores e diretoras. E o público parece acompanhar essas ideias, correndo atrás desses mitos fabricados.

 

Dos Filmes

 

Eu assisti a três filmes. Cinema Novo, filme de Eryk Rocha; Hissein Habré, a chadian tragedy, de Mahamat-Saleh Haroun e One Eyed Jacks, único filme dirigido por Marlon Brando.

 

Cinema Novo

 

O primeiro é um documentário experimental sobre o cinema novo. Experimental por que não busca uma abordagem objetiva sobre este cinema, mas criar uma espécie de ensaio que busca o sentimento de inquietação que aquele cinema buscava.

Nesse sentido, é um sucesso. A emoção ao ouvir a voz de gênios como Glauber Rocha (Pai de Eryk), Joaquim Pedro de andrade, Walter Lima Jr e Eduardo Coutinho é grande. São figuras centrais do cinema brasileiro e poetas que marcaram não só o cinema nacional, mas o mundial com sua sensibilidade, visão e violência na forma únicas.

Em meio a relatos desses indivíduos, no calor do momento, já que são relatos dos anos 60, 70  e 80, enquanto realizavam filmes. Eryk constrói uma poesia ao redor do que foi e do que significou esse movimento do cinema brasileiro. Mais do que isso, o cinema vira um personagem com seus medos, angústias e paixões., englobando ai, todos os cineastas que fizeram um cinema relevante nessas décadas.

A vontade de escapar; fugir. A desesperança, frustração, contradição e lamento são sentimentos construídos pelo filme de Eryk Rocha e que permeiam todos os filmes dos cineastas desta época. Todos eles parecem ter uma unidade poética, que traduzem sentimentos necessariamente brasileiros e que dizem respeito muito ao que se sentia durante aqueles anos neste pais.

 

Hissein Habré, a Chadian Tragedy

 

O documentário Hissein Habré, a chadian Tragedy, trás a história de um prisioneiro político, que foi torturado barbaramente durante a ditadura de Chade e criou um grupo para os companheiros também vítimas de tortura. Durante o filme, vários presos relatam episódios da sua experiência na prisão; compartilhando entre eles o enorme sofrimento e trauma que sentiram e sentem, advindos dos seus anos na prisão.

Presente na sala em que o filme foi projetado, em Cannes, o protagonista do filme foi aplaudido por pouco mais de 4 minutos ininterruptos. Emocionado, ele sorria e olhava as pessoas da sala; lisonjeado com o envolvimento e reconhecimento das pessoas, sem dizer uma palavra.

Isto foi uma síntese do efeito causado pelo documentário e do seu poder nas pessoas que o assistiram. A forma parece desaparecer, e o que resta é o conteúdo; afinal, a história de dor, tanto física como psicológica, quase insuportável que é colocada de lado, de uma certa forma, a favor da vida ou da tentativa de viver; é bela demais. E mesmo que a forma seja repetitiva, ou lugar comum, uma vez ou outra, isso cede a grande história de sofrimento e superação presente nas vítimas da ditadura militar no Chade.

 

One-Eyed Jacks

 

O terceiro, One-Eyed Jacks; foi uma retrospectiva. Como já dito, foi o único filme dirigido por Marlon Brando. Uma iniciativa promovida por Martin Scorsese e Steven Spielberg, junto a The Film Foundation (Fundação presidida por Martin Scorsese) para restaurar o filme.

O filme rodado em Vista Vision, processo de obtenção de uma imagem mais larga que o normal (Widescreen), que consistia em trocar o filme de lado. Em vez de ser rodado de lado, como geralmente era, o negativo era rodado de frente. Um processo que foi utilizado entre meados dos anos 50 e início dos anos 60, majoritariamente pela Paramount, estúdio que desenvolveu o processo.

One-Eyed Jacks foi o último filme a utilizar este processo. Reunindo, então, diversos fatores que se agregam para tornar este filme especial. Uma grande melancolia pareceu sempre pairar no fundo, advinda das próprias emoções dos personagens, talvez, mas que pra mim vem dos sentimentos daquela época e do próprio Brando, afinal os anos 60 foram uma época de grande insegurança tanto para os estúdios como para qualquer outra pessoa normal. E além disso, época de grande forças ideológicas e revoluções.

Essa grande paixão é sempre vista nos atos de todas as pessoas do filme. Cada olhar, cada arrastar de pé ou respiro contém uma enorme quantidade de violência e paixões contidas. Não tão somente pela direção de Marlon ou da sua aparição na tela, que é frequente, incandescente e absolutamente genial; mas, me pareceu, pela atmosfera da época.

Este parece ser um dos fatores únicos do filme. Um que não externo a ele. Além de ser o último filme em Vista Vision, último filme de Marlon Brando e uma de suas atuações mais explosivas; traz um sentimento não tão comum. Ainda mais sustentado por mais de duas horas. Nesse sentido, One-Eyed Jacks soa como um épico apaixonado, no sentido mais amplo, em que tudo e todos parecem guardar algum rancor, algum ódio ou alguma paixão e estão prestes a explodir da forma mais insana e brutal possível.

XI Panorama Internacional Coisa de Cinema – Segunda (02/11/2015) –

Aubade

Um poema visual que parece abdicar de mensagem ou significado mais sólido, ao invés disso aposta na experiência pela experiência; um barato audiovisual por excelência. E nunca se torna chato ou maçante, de alguma forma há sempre um interesse visual proveniente da sua bela animação, que representa movimentos hipnóticos e belíssimas paisagens. Sua curta duração também ajuda neste sentido. A música bastante rítmica e a montagem precisa criam uma frequência de belas imagens que conquistam quem as assistem; se isto se sustentaria por mais cinco minutos, difícil saber, mas que se sustenta pelos seus cinco, com certeza.

Direção: Mauro Carraro
Duração: 
5 min.
Ano: 
2014
País: Suiça

 

Giz

As galinhas assumem o lugar dos humanos aqui. O ambiente é a cidade caótica, cheia de tráfego e lotada. O tom é de pesadelo, na verdade é isso que acontece com o protagonista desta história. Ele (corpo de ser humano e cabeça de ave) que tem uma vida sem graça, sonha ser um galo parado entre linhas de giz. O paralelo é interessante, a abstração do sistema capitalista atual que envolve esquemas e títulos que por vezes parecem surreais, como no vai e vem entre sonho e realidade. Há também a relação com a linha que é traçada para hipnotizar o galo, no seu pesadelo. Ele parece seguir esta trajetória passo-a-passo, mesmo sem saber quem a traça, numa alusão esperta das classes dominantes; o topo da pirâmide desse grande esquema.

Direção: Cesar Cabral
Duração: 
10 min.
Ano: 
2015
País: Brasil

 

Pig

Este curta metragem é perturbador, mas esse é um sentimento difícil e extremamente propenso a reflexão que de fato acontece nos curtos três minutos de duração deste filme. Através de uma animação de rabiscos, e majoritariamente preto e branca, vê-se um homem correndo atrás de um porco. O homem é composto de forma expressionista por partes do corpo humano. Os pés, as mãos e a cabeça, que é constituída por uma enorme boca no centro. Essa boca é importante dentro dessa pequena situação, já que o homem aparentemente visa abocanhar o suíno. Persegue o bicho vorazmente com requintes de perversidade. Ele grita “Pig!!!” insanamente, cada vez de maneira mais estranha e gutural. Em um ponto é difícil distinguir quem é mais animal dos dois, e ai parece residir o ponto central do filme. Em algumas das atitudes humanas revela-se seu lado mais animalesco, e ai se torna difícil distinguir ser humano de bicho.

Direção: Steven Subotnick
Duração: 
3 min.
Ano: 
2015
País: EUA

 

Sonámbulo

Imagens coloridas de formatos geométricos e padrões de movimento repetido aparecem uma atrás da outra neste filme hipnótico. Essa qualidade é tão forte que é difícil tirar o olho da tela por um momento sequer, e isso sem falar da música; um padrão de tango que remete a agitação e a repetição das imagens. Tudo parece remeter a um estado de transe profundo, onde a agitação mental é grande; a aparente sensação de ser sonambulo. Realmente interessante, mas isto me fez pensar na necessidade da história, nem que seja um fiapo dela. Um sentimento parecido que tive com outro curta da mostra, Aubade. Se sustentaria por mais de quatro minutos? Pelo que me parece, é necessário pelo menos uma migalha de história para que as pessoas se sintam compelidas a assistir o filme. Talvez isso possa ser contraposto por outro aspecto, e certamente isto me soa muito interessante, mas nunca vi um filme que fizesse isso por completo.

Direção: Theodore Ushev
Duração: 
4 min.
Ano: 
2015
País: Canadá

 

The Five Minute Museum (O Museu em Cinco Minutos)

As imagens aparecem não de segundo em segundo, mas de quadro em quadro; num ritmo insano elas abdicam de significado individual para se amalgamarem num coletivo. A própria lógica do museu é representada aqui, visto que as obras formam um significado conjunto para traduzir uma época da humanidade. Em cinco minutos, como descrito no nome do curta, assistimos a várias seções representadas por centenas de imagens que vão surgindo. Acompanhadas por música que reflete a época dos objetos mostrados, constrói-se a sensação na imagem e no som. Através de Raccords (continuidade) inteligentes, as imagens criam um ponto de atenção, e mesmo com a altíssima velocidade não há confusão de qualquer tipo. O cineasta alcança com eficiência o que propõe no título.

Direção: Paul Bush
Duração: 
6 min.
Ano: 
2015
País: Suiça/Reino Unido

World of Tomorrow (Mundo de Amanhã)

A animação em palito dos personagens de Don Hertzfeldt revelam economia. Característica essa que é oposta nos temas e diálogos do curta. Há tantas coisas para se falar que torna-se obrigatória a seleção de temas. O medo pareceu-me um dos mais fortes e robustos; A história dessa menininha que vive no mundo futurista, logo revela-se como a vontade do seu eu do futuro de continuar vivendo e lembrando. Parece confuso, e é um pouco, já que são tomadas liberdades criativas, mas tirando o suporte científico não há nada de tão estranho assim. As pessoas no espaço-tempo do filme conseguiram arranjar uma maneira de viver para sempre através da clonagem e da memória. A mulher resolve se encontrar com seu eu do passado, a garotinha, para resgatar uma memória em particular; Um encontro com a sua mãe. Deixando a incrível beleza e simplicidade de lado há uma conotação evolucionista nisso, visto que neste universo a memória é a sobrevivência, e no momento em que a mulher do futuro egoistamente rouba uma memória do seu eu do passado, está realizando uma ação em prol de si mesmo e de certa maneira, por medo da morte.

Aqui, quebro o limite de um parágrafo para curtas, mas é por um bom motivo. Mesmo que soe desconexo, acredito ser importante compartilhar isso e até um pouco egoísta, já que este foi um dos momentos que mais me marcou em todo o festival. Em uma passagem a mulher do futuro explica sobre os robôs que eram programados para trabalhar na lua, a muito tempo atrás. Funcionando a base de energia solar, eles sempre caminhavam contra a sombra que se projetava no satélite da terra. Ela conta que um dia eles pararam de funcionar, e os cientistas os programaram para achar que se ficassem parados na sombra, algo terrível aconteceria com eles. “E eles continuam caminhando até hoje”, diz a mulher; uma representação do poder que o mito e o desconhecimento têm de controlar o ser humano; basta olhar que ainda hoje, somos permeados por mitologias diversas que alteram as vidas das pessoas em várias instancias. Um dos momentos mais fortes do festival para mim, até agora.

Direção: Don Hertzfeldt
Duração: 
17 min.
Ano: 
2015
País: EUA

A Dez Prédios de Distancia (Ten Buildings Away)

A história de uma família israelense torna-se veículo para tratar de uma crescente do mundo contemporâneo; A falência da família como referência para os jovens e crianças. A quebra desses modelos é triste, mas necessária; os irmãos parecem nunca ter tido uma visão idealizada dos pais e estão no processo de quebra desta visão, porém quanto mais o tempo passa, mais eles têm expectativas quebradas, e a partir daí vão conhecendo o mundo e a natureza humana. O que é mais duro, é que esse é um dos problemas que os meninos terão de enfrentar, já que os prédios cinzas, rachados e enclausurados revelam através da sua superfície vários outros problemas que pairam no seu interior.

Direção: Miki Polonski
Duração: 
25 min.
Ano: 
2015
País: Israel

XI Panorama Internacional Coisa de Cinema – Domingo (01/11/2015) –

Longas-Metragem

As Mil e uma Noites – Volume 1, O Inquieto

Uma análise forte da situação portuguesa depois dos anos e 2013 e 2014, e também um forte ponto sobre o embate criativo de se realizar um filme. É quase palpável a melancolia que perpassa a produção; há o desejo de se realizar um produto fantasioso e escapista, mas a situação vivida pelo realizador é muito forte para que seja colocada em segundo plano, e ele decide por uma espécie de híbrido do real e surreal, que em si mesmo já ressalta algum incômodo ou mal estar presente.

A justificativa é estranha, visto que até um filme fantasioso receberia uma carga do estado de espírito do diretor, mesmo que de formas involuntariamente dispersas. Me peguei algumas vezes pensando sobre isto, de maneira que é algo de certa forma desesperador esta influência do sentir sobre a atividade artística. Mesmo tendo em mente o mais feliz e aconchegante dos filmes, há sempre a marca da vivência individual do realizador. Se ele está sentindo dor, a dor penetrará no filme de alguma maneira.

O diretor parece correr de si mesmo (como faz literalmente numa cena em que sai correndo da equipe de filmagem), num eterno embate entre duas tendências que não são tão contrárias assim, mas que pela superfície aparentam ser. Estranhamente no filme estão presentes essas duas tendências; o realismo cru, através de relatos supostamente documentais de pessoas em situações muito complicadas, e metáforas através de situações surreais, como alguns contos que envolvem um mago africano e alguns líderes políticos que procuram aumentar seu pênis. Tudo é contado com sensibilidade e poesia; as situações diversas e a música sempre bela criam um ritmo lento e gostoso de toque profundo, mas no final paira sempre uma certa estranheza sobre o que o realizador julga impossível. Certamente difícil, mas daí a impossível…

Direção: Miguel Gomes
Duração: 
125 min.
Ano: 
2015
País: Portugal/França/Alemanha/Suiça

XI Panorama Internacional Coisa de Cinema – Sábado (31/10/2015) –

Curta-Metragem

Objetos

Essas duas pessoas têm um relacionamento longo e em decadência. No momento em que o presenciamos, ele está numa fase ruim; ao contrário do afeto e o calor, há a frieza e a distância. As sombras predominantes e a profundidade de campo sempre reduzida entre os dois, demonstra com obviedade essa relação. Há algo causando essa progressão lenta e dolorosa, não se sabe o que é especificamente. Algo relacionado com o próprio tempo em si ou na morbidez do campo. Num último plano, descobre-se que ali se trata não de um lugar recluso, mas de uma cidade grande; os prédios altos e tristes apontam para a rotina caótica da metrópole. Impossível dizer exatamente o motivo, mas certamente o tempo é central nisso tudo.
Direção: Germano de Oliveira
Duração: 
16 min.
Ano: 
2015

País: Brasil

Longa-Metragem

Garoto

O novo trabalho de Júlio Bressane tem produção de circunstâncias louváveis. Filmado com orçamento pequeno e em pouco tempo (algo em torno de uma semana), é um esforço importante para consolidar um estilo de produção tão importante quanto este para o nosso cinema.

A natureza efêmera da paixão e seu ciclo que inclui amor, desejo, rompimento, etc… são abordados aqui, nesta mesma visão inevitável e estratificada que se vê por várias e várias vezes repetida. Ainda mais na situação de um casal de amantes que corre um atrás do outro; é cansativo quando esta abordagem não é espetacular, de sensibilidade única. Goddard, é um dos poucos a alcançar maestria ai, de forma que Bressane, aqui, soe como um seguidor mais fraco e menos robusto do cineasta francês, um Goddardzinho.

Mesmo com alguns planos maravilhosos, como quase todos filmados no sertão repleto de pedras magnificas, não há imagens de força grande que se juntam para adicionar solidez aos temas, variedade visual e construir os discursos diversos. São no máximo bonitas e passam batidas, muitas vezes, como um vento fraco. A produção de baixíssimo orçamento e tempo cobra seu preço, de modo que Bressane é inventivo, mas não tira da manga um filme particularmente forte.

Direção: Julio Bressane
Duração: 
76 min.
Ano: 
2015

País: Brasil

XI Panorama Internacional Coisa de Cinema – Sexta-Feira (30/10/2015) –

Curtas-Metragem

Etílico

Um curta bacaninha. Realmente, não há muito o que dizer sobre ele, principalmente devido a sua curtíssima duração. O que fica mais é a aparente falta de sentido nos acontecimentos e a estranha simbologia sexual, que sou-me engraçada por tratar-se de uma animação que tem como público alvo crianças. Um saca-rolhas, advindo de uma nave espacial, abre um vinho em movimentos repetidos que se assemelham a uma penetração. No final o saca rolhas entra em êxtase e derrama uma parte do conteúdo da garrafa, como um coito. Definitivamente algo não usual, no sentido da representação, para uma animação.

Direção: José Araripe Jr. e Iberto Rodrigues
Duração:
3 min.
Ano:
2014

País: Brasil

Biston Betularia

O título parece fazer referência a uma espécie de traça que se torna ativa durante a noite, e passa o dia inteiro se camuflando; se escondendo, como o protagonista que sai à noite e só é visto por nós (espectadores) nessa faixa de tempo. Isto parece uma relação obvia, mas há outra que talvez seja melhor; a seleção natural evidenciada pela traça que escureceu para se adaptar as arvores menos claras, é semelhante a transformação do homem, que se adaptou para as suas necessidades sociais. Ele sabe da sua condição; não é rico, é negro e imigrante. Isso causa preconceitos diversos nas pessoas ao seu redor. O filme pareceu-me um pouco sobre essa capacidade de adaptar-se em outro país, de um jeito difuso, visto que não começa acompanhando esta pessoa, mas ainda assim sobre este viés.

Direção: Ive Machado
Duração: 
13 min.
Ano: 
2015

País: Portugal

Agora Livre (Libre Maintenant)

Retratos aqui são de uma naturalidade belíssima. Todos os fotografados parecem confortáveis pelo menos no momento em que seus corpos são capturados pela máquina. Cobertos apenas por uma máscara que revela a sua natureza pública, nos descrevem, eles, que na vida em família ou entre amigos se portam de outra maneira da que realmente são; Uma gestão esquizofrênica da vida, como diz um dos fotografados em um momento. Estranho, triste e bela a maneira com que seus corpos nus se abrem pelo filme parado e em movimento, mostrando-se através desses instrumentos para fotógrafo e espectador.

Direção: Pierre Liebaert
Duração:
11 min.
Ano:
2014

País: Bélgica

Longas Metragem

O Gigantesco Imã

Uma história interessante, uma paisagem interessante e, acima de tudo, um personagem interessante. Acompanhamos um senhor que se denomina cientista e mora num sertão de Pernambuco, suas invenções consistem de bugigangas diversas; rádios, controles remotos, etc… tudo muito rústico e diferente. Seu processo de criação e sua fascinação sobre suas tecnologias o fazem parecer com uma criança, descobrindo o mundo.

É divertido acompanhar alguém assim, ainda mais quando este senhor é extremamente carismático e sabe contar uma história muito bem. Os contos e circunstâncias ao redor dos inventos são intrigantes e o jeito artesanal que são produzidos estes aparatos é de simplicidade única. Além de uma qualidade, também um defeito, visto que o senhor não pensa em design ou em quem usará o produto e isso revela um grande porém da sua forma de conhecimento. Tudo o que sabe é baseado no sensorial, tudo aquilo que tocou, viu e, em menor escala, leu; ele não se preocupa se aquilo que produz é viável ou como passar as descobertas adquiridas.

Numa cena, o inventor tenta fazer um carro funcionar retirando várias partes fundamentais e trocando o motor tradicional por um de cana, e, surpreendentemente o carro anda. Ai reside a grande questão, como esse carro seria viável? Como passar este conhecimento adquirido? São todas questões que não são pensadas pelo inventor, e o filme coloca isso como uma via alternativa de conhecimento, como se isto fosse ideal. É belíssima, a maneira como o conhecimento foi adquirido, nas condições em que foi adquirido, mas esse saber fica apenas com uma pessoa e constrói, no máximo, um Passa-Tempo para os outros da cidade.

Direção: Tiago Scorza e Petrônio

Duração: 72 min.

Ano: 2015

País: Brasil

Aqui em Lisboa

A junção de quatro curtas para formar um longa nunca foi tão estranha. Todos os curtas têm, pelo menos, alguma ligação com Portugal, nem que seja mínima. Os dois primeiros exploram, visivelmente, paisagens e pessoas portuguesas com muito mais ênfase e são mais focados em uma abordagem pessoal, ao redor dos moradores do país e como eles se relacionam com o ambiente. O terceiro e quarto necessitam de explicação individual, visto que destoam do resto.

O primeiro tem um método bastante claro e direto. Acompanhar uma mulher espanhola na meia idade que faz viagem pelo país. Os seus olhos são os nossos, de forma que, como ela, sentimo-nos estrangeiros explorando aquela terra. A culinária, as paisagens e as pessoas são as partes mais atrativas daquilo e, embora rapidamente o filme divague pela relação pessoal dessa mulher, esse aspecto ainda é atraente.

O segundo curta pende mais para o lado da abordagem pessoal do que a relação com o ambiente, e parece querer centrar-se em alguns personagens, explorando um pouco do seu cotidiano de forma aparentemente aleatória. Essas pessoas não tem nenhuma relação umas com as outras, visto que são de lugares e contextos diferentes e a única coisa que parece liga-los é uma banda de Jazz Free Style (quando todos os músicos improvisam), em que eles acabam se juntando no mesmo espaço. Pode-se enxergar, obviamente, como uma metáfora sobre a correria da cidade, mas não deixa de faltar alguma relação mais forte entre as pessoas ou discurso fílmico.

Neste ponto da projeção eu estava frio, mas com certa expectativa de que o próximo filme seria algo parecido com os dois primeiros. Abordagens nos personagens ou na cidade, talvez um pouco mais diferente no tom dos personagens ou estilo, mas ainda sim parecido com os anteriores. Eis que surge um letreiro exageradamente grande, todo de prata, com uma música de metal pesado atrás. Tentando alcançar um tom paródico de alguns programas sensacionalistas norte-americanos. A comédia escrachada, exagerada, escatológica e absurdista, típica de alguns filmes de comédia da américa do norte, está em 99% do filme, e a minha risada veio mais pela estranheza daquela situação e não pela situação em si (“será que eu estou no filme certo?” “Erraram a na ordem dos filmes?” Era o que passava na minha cabeça).

Sobre o quarto e último curta não há muito o que dizer. É apenas uma espécie de pastiche de um trecho de Idade da Terra, de Glauber. Filmado com câmera na mão e quebrando a quarta parede a todo momento, a peça irritante contém gente fantasiada de sereia ou animais diversos, dançando ou interagindo de forma aparentemente aleatória. A descrição e análise dos filmes é longa e passa o limite de três parágrafos, que impus a mim mesmo, justamente para dar base a uma impressão que tive. Os curtas não constituem discurso ou algum sentido conjunto entre eles.

Direção: Denis Côté, Dominga Sotomayor, Gabriel Abrantes e Marie Losier

Duração: 90 min.

Ano: 2015

País: Portugal