XII Panorama Internacional Coisa de Cinema – Primeiro Dia (09/11/2016)

Pequeno aviso antes do texto do único filme visto hoje e um dos três que abre o XII Panorama Internacional Coisa de Cinema:

Nos dias seguintes, até o dia 16/11/2016, irei cobrir o festival escrevendo pequenos textos sobre os filmes assistidos nele. Então fiquem ligados no blog pra ler sobre filmes recentes e clássicos do cinema Nacional e Internacional.

E se você for de Salvador, não deixe de conhecer o festival; os preços são baratos, a variedade é relativamente grande e os filmes são relevantes. Também, a equipe tem o esforço de projetar alguns filmes em 35 mm; o que é algo muito raro atualmente e um privilégio poder assistir um filme neste formato.

“Polícia é polícia; bandído é bandido”

É com essa frase que se pode definir o filme de Hector Babenco. Lúcio Flávio, o Passageiro da agonia; um dos que abre o XII Panorama Internacional Coisa de Cinema, exibido em 35 mm, carregando toda a energia, toque e transparência que este formato permite . A escolha deste filme é forte, e traz como característica a vitalidade, leveza e força de Babenco e dá época em que ele foi realizado.

A polícia fica no centro. O bandido também. E sobre essas duas figuras o filme não parece fazer distinção. Embora, formalmente estejam em campos opostos; na prática, agem do mesmo lado e numa linha muito fina, caminhando de mãos dadas; um tentando derrubar o outro, mas com essa prática acabam, sem querer, realizando o equilíbrio tão necessário para chegar ao outro lado. Embora, eventualmente, quase caiam vez ou outra.

Este outro lado é o dinheiro. Grana. O meio imaterial para a tão sonhada escalada; subir na vida. Ser chefe e não ser um “Pé de chinelo”, como dito várias vezes por Lúcio Flavio. Esta parece ser a sua “Agonia”; e não as intermináveis torturas a qual é submetido, que ele encara como rotina.

Rotina parece ser a palavra chave neste filme. Assim como em Alemanha ano 0 e rigorosamente todo neorrealismo italiano, a cidade reflete os objetivos. Ambos visam o mesmo fim, mas com causas diferentes. Na Itália de Rosselini; a guerra. No Brasil de Babenco, a desigualdade. Paralelamente, a câmera parece passear da mesma maneira, como se os olhos fossem similares; os movimentos panorâmicos de Babenco são semelhantes, percorrem a cidade em alta velocidade, numa realidade que não se pode registrar adequadamente. E o famoso Dolly que se afasta de uma mulher correndo na direção da câmera é replicado; ao invés de “Francesco! Francesco!” temos “Lúcio! Lúcio!”. Aparentando, então, fins similares.

Também no objetivo de simplesmente querer acompanhar pessoas, Babenco cruza com o cinema italiano dos anos 40. Se de um lado vemos a força nos temas, de outro a leveza na hora de contar a história; o estilo quase que desaparece e não há objetivos; apenas a rotina de algumas pessoas e quando elas morrem (isso não é Spoiler); a morte é mais forte e dura, e os intermináveis pesadelos de Lúcio Flávio, que são conduzidos magnificamente sem alteração de nenhuma natureza; como vida real; parecem ainda mais verdadeiros.

Escondidos; discretos e ao mesmo tempo explosivos; baderneiros. É a gangue de Lúcio Flávio e, também é o cinema de Babenco. Uma junção inesperada e estranha, que traz as duras camadas da realidade envoltas em linho macio. Uma excelente escolha da curadoria e direção do XII Panorama Internacional Coisa de Cinema, para se relembrar uma grande obra, um grande cineasta, pensar no Brasil e pensar no cinema Brasileiro.

Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (Brasil, 1977)

Direção : Hector Babenco

Roteiro : Hector Babenco, Jorge Durán e José Louzeiro

Elenco : Reginaldo Faria, Ana Maria Magalhães, Grande Otelo, Ivan Cândido, Lady Francisco…

Fotografia : Lauro Escorel

Montagem : Silvio Renoldi

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