XII Panorama Internacional Coisa de Cinema – Segundo dia (10/11/2016)

Minotauro – Viagem ao Labirinto do Corpo

Uma peça instigante sobre o desenvolvimento humano. As etapas, do nascimento a morte, são retratadas como fases de videogame, onde o jogador pode abandonar ou continuar o jogo após sofrer um forte baque. As fases são, na verdade, performances artísticas que parecem simbolizar não só a natureza humana, numa progressão; sua fertilidade, vitalidade e a mais profunda sombra de angústia, medo e dor, representadas pela performance de uma criatura horripilante; dotada de máscara, chifres e espinhos nas costas.

Parece Pouco implementar os símbolos vindos do Videogame. Além de súbitos incrementos no ritmo e a metáfora central do Game over (Jogo encerrado), que se assimila a alguns momentos da vida de qualquer pessoa, soam como enfeites de modernidade mais fraca possível. Onde se entope de símbolos relacionados com um ideal de Juventude; algum produto, e se espera uma identificação, por parte do público.

Não passa de um filme sobre a vida. Tendo sim um mérito por alcançar isso de forma eficientes; pelas performances e motivos recorrentes. Sendo um filme simples e enfeitado sobre a experiência da vida.

Diretor(a): Leonardo França

A Cadeira de Balanço

Também um filme interessante, mas que poderia encerrar-se com essa descrição apenas. Sendo ele minimamente especial, simplesmente por ter uma migalha (estou sendo generoso aqui) de experimento formal.

Somos, durante maior parte do filme, aquilo que nos causa maior tensão. O objeto ou pessoa que chega na casa de um casal; implantado em uma espécie de aparelho que se assemelha a um micro-ondas. Um homem, ao lado da sua esposa, observam atentamente a esta coisa; o homem, porém, parece mais perturbado e envolvido. Nós, que ocupamos o lugar deste elemento perturbador; subjetivamente, não o observamos. E a tensão vem daí; de querer saber o que é esta coisa.

Paralelo a isso, tem-se os temas da maternidade, paternidade, distanciamento nos relacionamentos; pairando. Este conteúdo é organizado de forma simples, porém.

Um exercício eficiente de gênero. No que almeja, muito pouco, alcança com êxito.

Diretor(a): Fernanda Fontes Vareille

 

Ridículos

Com filmes como este há de se ter cuidado, pois de um lado são propostas interessantes; diversas; com variedade de estilos e formas. Uma maneira diferente de se realizar dentro do panorama, especialmente o baiano, de cinema.

Por outro são filmes com blocos de conceitos e formas extremamente repetidos de maneira a, dentro da sua variedade, criar uma monotonia quase que insuportável, e alterna momentos de força muito pequena, com algumas pérolas de muitas qualidades.

O filme parece ser uma espécie de cinema direto onde se capta uma entrevista de um candidato a uma vaga num grupo de palhaços; alternado a isso, as performances dos palhaços. A combinação desses estilos é feita; o suposto cinema direto (onde se pode ver câmeras e operadores de som, simulando uma situação real) e o cinema mais performático; câmera parada; tableau, onde, num plano mais aberto, vemos os palhaços pintarem e bordarem. A primeira muito mais interessante, já que se baseia na interação das pessoas, algo que forma uma base sólida capaz de ser fonte de dinamicidade constante.

A isto atribuo a interação dos indivíduos, todos de personalidade única; forte; rostos expressivos e condução das situações sempre de maneira a adicionar alguma novidade, de alguma forma.

As palhaçadas, ao contrário disso, são fontes recorrentes de repetição. O tipo de humor é o mesmo; físico. E sempre relacionado a mesma fonte; o desengonço dos palhaços, e de forma linear e única, sem adição de outras situações paralelas, e organizadas em estrutura repetitiva. Uma interação entre os indivíduos na entrevista é sempre seguida por uma performance. Dito isso, é como se assistíssemos uma pessoa levanto uma torta na cara cem vezes. Nas primeiras três, ri-se; nas noventa e sete seguintes, a reação é a mesma. De indiferença. Pelo menos para mim foi assim.

Entre algumas dessas interações, há momentos que tocam; para além do rir, se aproximando da natureza da performance, algo que é, em essência, agridoce; dual. A cena do corte do cabelo e da dança da palhaça comendo banana se enquadram ai.

Uma pena que quando se adentra perto da metade do filme, as performances mais repetitivas tornam-se excruciantes e acabam por obscurecer as partes mais interessantes.

Diretor(a): Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge

Confidente

A atmosfera da memória, em confidente, é constante. Por meio de filmes de arquivo de épocas que remetem ao inconsciente coletivo Brasileiro da infância (anos 40, 50, 60); uma nostalgia que temos dessas épocas que guardam um espaço especial na memória do povo deste país; cria-se uma atmosfera que captura uma parte desse sentimento.

Pena que o filme traz os vícios mais rasteiros do atual cinema experimental brasileiro. São rasteiros por que, se é filme experimental, tem de experimentar; e para mim, copiar a forma, por ela estar em uso constante, é a antítese do filme experimental e sinal de preguiça e mediocridade.

Então, muito do valor conseguido com os filmes de arquivo sobrepostas e o tema interessante, é deletado por uma narração absolutamente genérica e a montagem que repete imagens iguais, uma atrás da outra, muito rapidamente; forma que, se fosse maçã, já teria caído de podre, dentro do panorama atual.

Diretor(a): Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes

Interdito

Um experimento bastante interessante e esteticamente belíssimo. Num plano único; estático, vemos um casal se aproximando, se abraçando e se beijando. No ínterim, um dos membros do casal ascende e apaga um isqueiro que, nas condições de uma praia escura, brilha em flash, se assemelhando a um farol.

Dessa maneira, pode-se interpretar como uma simples metáfora para a volubilidade das relações; mas o filme rapidamente se expande para além disso. A belíssima imagem do mar a noite; com quase nenhuma luz artificial (algo que, como realizador, gostaria de fazer diga-se de passagem); sombria e solitária; dá contornos da vulnerabilidade humana, misticismo e vaidade. Funciona como as sombras, no cinema Noir.

É incrível como alguns elementos trazem um turbilhão de significados e expandem um tema ou história de forma exponencial.

Diretor(a): Leon Sampaio

 

Cinema Novo

“Sou caçador de nuvens. Já fui caçado por tempestades”

A frase do eterno Presidente da câmera Federal e presidente da constituinte, Ulysses Guimarães é uma perfeita descrição do Cinema Novo; movimento cinematográfico brasileiro dos anos 60 e 70; examinado criativamente, com tons informativos e, majoritariamente poéticos, pelo documentário com o mesmo nome do movimento: “Cinema Novo”.

Sempre perseguidos; reféns de uma situação; mas dotados do amor mais profundo, os cineastas eram como heróis, assassinado um dragão a cada dia. Mesmo assim e, a partir disso, criaram filmes diversos, mas com pontos, imagens e temas que os uniam dentro da sua diferença.

É a partir deste viés que Eryk Rocha parece querer desbravar este movimento. A partir do seu “espírito comum”. Certamente é bastante exitoso, já que por isso só o filme já consegue atrair bastante, visto que a semelhança entre filmes diferentes é assustadora, e é fonte de atenção a todo tempo, dado o quão parecidas são as várias imagens e maneiras de retratar um gesto ou assunto.

As pessoas sempre parecem correr de algo ou utilizar da violência mais brutal umas com as outras. O mar, também, parece ser recorrente como símbolo da vontade de ir embora, ou da nostalgia de tempos que não voltam mais. Coisas que são recorrentes no Cinema Brasileiro.

Em meio a isso, há uma camada informativa de valor muito grande, onde se vê os realizadores falando de seus filmes e do seu cinema. Discutindo, cada um com o seu ponto de vista, sobre o panorama de cinema a época, histórias, estilos e o que pensavam a àquela altura sobre o cinema Brasileiro. Dessa maneira, percebe-se características do movimento que de outra maneira não seria possível perceber. A forma como o cinema novo foi fruto de um impulso de alguns indivíduos, da conjuntura socioeconômica brasileira dos anos 60 e de um “Vazio cinematográfico”, como chama Joaquim Pedro de Andrade, existente no Brasil, por exemplo. Isto quando se diz respeito ao cinema que se aproxima mais dos exteriores e, portanto, da realidade brasileira. Também, e não menos importante, que o cinema novo foi pioneiro entre o cinema moderno ao redor do mundo e, não só isso, criou uma própria forma; orgânica e absolutamente brasileira; mais pujante em expoentes como Glauber Rocha.

Tudo isso é grudado por um ritmo estável e relativamente rápido; além de forte, pois contrapõe imagens similares criando embates que fortalecem o aspecto da semelhança entre os filmes e ligam o cinema de diferentes realizadores e até de diferentes épocas, em um discurso que busca a evolução não só do cinema brasileiro, mas de seus temas, forma, histórias e modelo de produção.

Diretor(a): Eryk Rocha

XII Panorama Internacional Coisa de Cinema – Primeiro Dia (09/11/2016)

Pequeno aviso antes do texto do único filme visto hoje e um dos três que abre o XII Panorama Internacional Coisa de Cinema:

Nos dias seguintes, até o dia 16/11/2016, irei cobrir o festival escrevendo pequenos textos sobre os filmes assistidos nele. Então fiquem ligados no blog pra ler sobre filmes recentes e clássicos do cinema Nacional e Internacional.

E se você for de Salvador, não deixe de conhecer o festival; os preços são baratos, a variedade é relativamente grande e os filmes são relevantes. Também, a equipe tem o esforço de projetar alguns filmes em 35 mm; o que é algo muito raro atualmente e um privilégio poder assistir um filme neste formato.

“Polícia é polícia; bandído é bandido”

É com essa frase que se pode definir o filme de Hector Babenco. Lúcio Flávio, o Passageiro da agonia; um dos que abre o XII Panorama Internacional Coisa de Cinema, exibido em 35 mm, carregando toda a energia, toque e transparência que este formato permite . A escolha deste filme é forte, e traz como característica a vitalidade, leveza e força de Babenco e dá época em que ele foi realizado.

A polícia fica no centro. O bandido também. E sobre essas duas figuras o filme não parece fazer distinção. Embora, formalmente estejam em campos opostos; na prática, agem do mesmo lado e numa linha muito fina, caminhando de mãos dadas; um tentando derrubar o outro, mas com essa prática acabam, sem querer, realizando o equilíbrio tão necessário para chegar ao outro lado. Embora, eventualmente, quase caiam vez ou outra.

Este outro lado é o dinheiro. Grana. O meio imaterial para a tão sonhada escalada; subir na vida. Ser chefe e não ser um “Pé de chinelo”, como dito várias vezes por Lúcio Flavio. Esta parece ser a sua “Agonia”; e não as intermináveis torturas a qual é submetido, que ele encara como rotina.

Rotina parece ser a palavra chave neste filme. Assim como em Alemanha ano 0 e rigorosamente todo neorrealismo italiano, a cidade reflete os objetivos. Ambos visam o mesmo fim, mas com causas diferentes. Na Itália de Rosselini; a guerra. No Brasil de Babenco, a desigualdade. Paralelamente, a câmera parece passear da mesma maneira, como se os olhos fossem similares; os movimentos panorâmicos de Babenco são semelhantes, percorrem a cidade em alta velocidade, numa realidade que não se pode registrar adequadamente. E o famoso Dolly que se afasta de uma mulher correndo na direção da câmera é replicado; ao invés de “Francesco! Francesco!” temos “Lúcio! Lúcio!”. Aparentando, então, fins similares.

Também no objetivo de simplesmente querer acompanhar pessoas, Babenco cruza com o cinema italiano dos anos 40. Se de um lado vemos a força nos temas, de outro a leveza na hora de contar a história; o estilo quase que desaparece e não há objetivos; apenas a rotina de algumas pessoas e quando elas morrem (isso não é Spoiler); a morte é mais forte e dura, e os intermináveis pesadelos de Lúcio Flávio, que são conduzidos magnificamente sem alteração de nenhuma natureza; como vida real; parecem ainda mais verdadeiros.

Escondidos; discretos e ao mesmo tempo explosivos; baderneiros. É a gangue de Lúcio Flávio e, também é o cinema de Babenco. Uma junção inesperada e estranha, que traz as duras camadas da realidade envoltas em linho macio. Uma excelente escolha da curadoria e direção do XII Panorama Internacional Coisa de Cinema, para se relembrar uma grande obra, um grande cineasta, pensar no Brasil e pensar no cinema Brasileiro.

Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (Brasil, 1977)

Direção : Hector Babenco

Roteiro : Hector Babenco, Jorge Durán e José Louzeiro

Elenco : Reginaldo Faria, Ana Maria Magalhães, Grande Otelo, Ivan Cândido, Lady Francisco…

Fotografia : Lauro Escorel

Montagem : Silvio Renoldi