Aquarius Crítica

Cobertura do Festival de Cannes

AQUARIUS

Tudo o que foi dito sobre Aquarius (excluindo as insanidades e implicâncias com o cineasta), filme mais recente de Kleber Mendonça Filho, e único Brasileiro na seleção oficial de longas-metragens; parece ser verdade, de uma forma ou outra. Um grande filme, parece causar uma espécie de frenesi de interpretações, e todas elas contém algum grau de verdade. E que Aquarius é um grande filme, acho que ninguém que o assistiu pode negar.

Se olharmos bem no fundo dos olhos desta obra veremos que o que há, na essência, é um filme apaixonado. Um amor profundo da memória do nosso povo; a nostalgia coletiva do povo brasileiro. E é sobre isso que o filme parece tratar; e de fato o faz com muito carinho. Ai, para mim, reside um dos grandes fatores que fizeram com que ele não fosse premiado em nenhuma categoria, no festival de Cannes. Um filme feito por brasileiros, para brasileiros e sobre brasileiros; algo que, ao chegar nos olhos de um estrangeiro destas terras, parece um pouco confuso; não tão forte e talvez um pouco fora de tom.

Não que o filme precise ganhar algo neste festival. Cannes já demonstrou muitas vezes seu conservadorismo em edições passadas, no que diz respeito a forma, principalmente. E, nesse sentido, o filme já tem um enorme feito; que é a sua presença na seleção oficial, coisa que não acontecia a um filme brasileiro a alguns anos.

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O cinema de Kleber Mendonça Filho, se apresenta como a flor da pele. Tudo parece querer pulsar para fora da tela, como um floco de milho que vira pipoca. Além de uma paixão melancólica e muito forte, há uma tensão intensa que vêm de todos os lados; uma mistura de um amor muito grande pelas coisas que são genuinamente nossas e, ao mesmo tempo, um enorme impasse que vem, também, de relações muito peculiares entre as pessoas. Relações que existem, na sua forma, apenas no Brasil e que todas essas coisas, relações e pessoas estão interligadas em uma grande rede.

Por este caminho, Kleber domina não só a linguagem do cinema, aquela clássica e a mais contemporânea, mas faz um caldeirão de gêneros. O terror misturado com a ação, filme de crime e faroeste. O cineasta se utiliza das convenções dos gêneros de acordo com o que quer retirar de quem o assiste. No cinema de Kleber, tanto neste, como em O Som ao Redor, não há limites ou fronteiras, tudo se mistura, e o critério parece ser, neste filme, o de arrancar os medos e amores, que são nossos. Brasileiros.

Isto, parece ser a grande batalha da protagonista, Clara. Uma mulher que luta pelas suas memórias, pelo afeto que mantém sobre as coisas que fizeram e são parte da sua história. Os vinis, os móveis e o próprio apartamento no edifício Aquarius, que foi palco de grande parte dos acontecimentos da sua vida. Uma personagem forte; de garra, trazida com força e humanidades ímpares por uma das maiores atrizes brasileiras em atividade, Sonia Braga. Uma mulher que se recusa a entregar aquilo que há de mais valioso neste mundo para ela

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É engraçado, como as memórias boas e ruins se misturam até ficarem indissociáveis. As duas, revelam diversas faces da natureza estrutural da cidade do Recife, que podem ser ampliadas, muitas vezes, para o Brasil. O coronelismo, rixas entre famílias diferentes e dentro das próprias famílias; a “cordialidade”; tudo se apresenta junto e parecem ser, como são apresentadas, duas faces da mesma moeda. A memória, traz consigo um lado bom e um lado ruim.

De toda esta linguagem, o que chama mais atenção, e que talvez se possa dizer, é o resumo deste cinema, é o uso do Zoom; movimento aproximar e afastar através da lente. Kleber é o Robert Altman brasileiro; talvez ainda mais forte que ele; não só no sentido de dominar essa técnica, mas de usa-la como uma forte ferramenta de expressar o que quer. O vai e vem das lentes, as vezes de maneira imensamente rápida e violenta, é de tirar o fôlego. Deslocam com brutalidade; retiram da zona de conforto. Trazem de uma realidade a outra, de um espaço a outro; do amor ao ódio.

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Da parte do amor, a música resgata a maior parte deste sentimento, me pareceu. Aliada fortemente a memória e a nostalgia que é muito particular as pessoas que vivem neste pais, todas elas parecem guardar um pouco da essência das nossas relações e de nós mesmos. Algumas das músicas, tanto na letra quanto na melodia, resgatam o lado mais carinhoso destas lembranças. “Eu passei muito tempo aprendendo a beijar outros homens; como beijo meu pai…”, quando cantado por Gilberto Gil; causa arrepios e lágrimas das experiências de cada um dos personagens; quando, na cena em que aparece, todos param o que estão fazendo para ouvir a música. E todos parecem lembrar de algum momento que faz amargar o coração por aquilo já ter passado; por ser memória e não poder voltar mais. Como são as coisas na vida.

Kleber traz com este filme, um grande refresco para o cinema brasileiro. Certamente será um dos filmes mais elegantemente diferentes do ano e tão importante, visto a falta de risco tomado por uma grande maioria de filmes que passam, recentemente, pelo circuito comercial. Se lhe aconselharem a não assistir este filme, qualquer que seja a razão, ignore; não faça isso. Mesmo que não goste depois, esse filme merece mais; merece que o assistam, mesmo que para dizerem mal dele.

Aquarius (Brasil, 2016)

Direção: Kleber Mendonça

Roteiro: Kleber Mendonça Filho

Direção de Fotografia: Pedro Sotero e Fabricio Tadeu

Direção de Arte: Juliano Dornelles e Thales Junqueira

Produção: Emilie Lesclaux, Saïd Ben Saïd e Michel Merkt

 

8 comentários em “Aquarius Crítica”

  1. Muita sensibilidade, clareza numa alma tão jovem, mas, consciente do que é bonito e tem valor. Raridade um jovem fazer uma crítica tão elogiosa a um tema Nacional e a um diretor Brasileiro. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Nem tudo na vida é feito de prêmios ou dinheiro, muitas vezes uma crítica sincera, uma palavra amiga, ou mesmo um simples abraço, nos preenchem mais do que qualquer outra coisa!
    A sua crítica sobre este filme me parece isto, um abraço de agradecimento, uma palavra de apoio e reconhecimento do grande trabalho feito por KMF, ao retratar o povo brasileiro, sem máscaras ou caricaturaseja, sem recorrer à mesmice do samba, mulheres e futebol!
    Parabéns

    Curtido por 1 pessoa

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