O Padre e a Moça

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Há algo de místico em O Padre e a Moça. Algo que se sente em alguns outros filmes; aqueles que dão os sentimentos mais esquisitos, mas que de tão peculiares torna-se difícil explicar com palavras o que se sente ao assisti-los. É inútil tentar estabelecer uma sistematização para traçar os porquês do filme causar o que causa. O texto vira, então, impressões do filme. O máximo que se pode fazer é tentar explicar o que foi experimentado e listar alguns dos aspectos que mais agradam, de forma que o crítico se torna, de certa maneira, impotente diante do cinema. Este parece ser o poder de um filme feito com verdade.

Dentre tudo o que mais encanta é a forma que a música parece refletir todos os outros aspectos dentro do filme e destacar a incrível melancolia presente no conjunto das ações e na concepção de destino, que me pareceu a grande força impulsionadora do filme. A peça de Carlos Lyra é arrebatadora no sentido de construir um sentimento de inevitabilidade diante do sentimento que os dois personagens apaixonados sentem, e na trajetória para concretizarem este amor.

No enterro do padre Antônio, a melodia transpõe uma grande melancolia; mas de escala épica. Como se aquele fosse um episódio chave, que é de fato, e inevitável para que a história siga. Ai parece se traduzir o ciclo da vida que se encerra na morte; e dela nasce um amor incontrolável e proibido. O padre e a moça, mesmo sabendo das consequências da sua relação, não conseguem conter seu amor, que soa como uma peça pregada pelo diabo nos dois amantes.

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Além deste grande entrevero para que o amor se concretize, há outras condições que o dificultam. Por exemplo, a natureza da cidade em que habitam os personagens. As pessoas da pequena cidade de São Gonçalo do Rio das Pedras veem cada passo dado por seus vizinhos e se não veem, ficam sabendo. Isso pelo tamanho da cidade que é brilhantemente ressaltado pela música que, ás vezes, remete a um sentimento provinciano.

Essas dificuldades percorrem todo filme e são destacadas pela fotografia de Mario Carneiro, que além de criar texturas e formas que remetem a uma cidade pequena do interior de Minas Gerais, como as ladeiras íngremes, paredes tortuosas e as sombras naturais que se misturam ao ambiente; também ajuda a construir a atmosfera que percorre a duração da obra. O alto contraste entre preto e o branco conta uma história em si mesmo, e o conflito proveniente desse embate se adiciona a tensão sexual que é tema central deste filme.

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Depois dessa longa jornada, o amor é consumado e morre no “fogo do inferno”; como se fosse o julgamento daqueles personagens por suas ações. O cineasta, porém, não “interfere” nisto. São os próprios moradores da cidadezinha que o fazem, como se fossem dotados de autoridade para tal. O encerramento vem por um trecho do poema de Drummond: “Ninguém prende aqueles dois,
Aquele um negro amor de rendas brancas”. Sugerindo uma continuidade metafísica aquilo e, num tom sombrio rodeado pelo preconceito e maldade humana, que, independente do fim que teve, o amor valeu a pena.

Nesta hora, me dou conta da genialidade da escolha que, acredito eu, é a principal para a construção da atmosfera do filme. Ao optar por filmar em São Gonçalo do Rio das Pedras, Joaquim Pedro de Andrade traz uma enorme carga de melancolia que é responsável por esta estranheza descrita no primeiro parágrafo. “Aqui não vem mais ninguém, padre. Tem muita serra pra subir. Descer pra ir embora é mais fácil”, diz Fortunato. Um lugar de imensa beleza, com gente sofrida, mas que parece parado no tempo, tanto nos costumes, como nas construções que ali estão imóveis por mais de cem anos.

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O Padre e a Moça (Brasil, p&b, 1965)

 

Direção: Joaquim Pedro de Andrade

Fotografia: Mario Carneiro

Roteiro: Joaquim Pedro de Andrade

Elenco: Helena Ignez, Paulo José, Mário Lago, Fauzi Arap, Rosa Sandrini

Duração: 90 min.

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