Adeus à Linguagem

Ah DieuxO mais novo filme de Jean-Luc Godard é uma bomba. No melhor e mais agressivo sentido da palavra. Adeus à Linguagem é tanto um poema quanto uma exploração formal da linguagem cinematográfica, não só das mais tradicionais e mais assentadas formas que o cineasta francês já vem fazendo tremer nas bases há várias décadas, mas o mais recente artifício (não está sendo usado pela primeira vez, mas está sendo muito usado atualmente) que é manejado como se fosse um daqueles jogos de troca de roupas online, tamanho o domínio do cineasta. O 3D é testado em quase todas as suas possibilidades e arranjos, brilhantemente, por um homem que dedicou sua vida ao cinema.

Apenas o fato de podermos testemunhar uma obra dessas é um privilégio, necessário dizer. Portanto, assista ao filme, independente do que lhe foi dito ou do que você leu. Este senhor tem mais de meio século de cinema, devotou sua vida a esta arte fazendo filmes extremamente difíceis e nada seguros financeiramente e/ou artisticamente. Colocando em jogo sua reputação em cada filme em uma aposta que, para o cinema, não tinha, não tem e nunca terá como dar errado.
Cachorro em metroEm comum com seus outros filmes este traz um desligamento forçado do espectador a narrativa por meio da negação de eventos que fariam o filme “caminhar para frente” e recursos estilísticos que puxam o espectador para fora. Entre os tradicionalmente utilizados por este cineasta, como o diálogo dessincronizado, a montagem propositalmente “fora de ritmo” e a música fragmentada, está o mais novo e inovador aspecto deste filme: o uso do 3D em ocasiões diferentes e em arranjos complexos, de forma que este recurso se encontrava em um patamar antes deste filme e agora está em outro, muito mais conhecido, como se Adeus à Linguagem fosse um estudo científico em que Godard está para o 3D como Newton está para a gravidade.

Os personagens são quase os mesmos, mas a história de um casal (não sei se é um casal de duas ou três pessoas) que tem uma relação estranha, mas ao mesmo tempo essencialmente humana e o cachorro que sempre está andando a uma direção desconhecida viram uma série de símbolos que se convertem em um barato audiovisual, como se o espectador sonhasse de olhos abertos. O homem (Kamel Abdelli ou Richard Chevallier) e a mulher (algumas vezes Héloïse Godet, outras Zoé Bruneau) compartilham de uma solidão profunda e uma busca existencial de algo que os complete, de alguma forma. Em um certo momento, a personagem de Zoé encontra um homem e, naquele momento, pareceu achar que a relação dos dois a preencheria. Mas, tanto os homens quanto ás mulheres parecem nunca estarem completos; sempre em busca de algo que nunca sabem, eles estão sempre a se locomover, de alguma forma, de um lugar a outro.

Os planos mais poéticos como um em que crianças correm em um campo verde e alguns que demonstram o painel de um carro na noite e um limpador de para brisas mecânico indo e vindo, parecem refletir essa busca. Qualquer pessoa que já dirigiu á noite consegue se relacionar com esses planos e entender, pelo menos em algum nível, a provável solidão que aqueles personagens experimentam.

carroO 3D, nestas cenas, se manifesta em uma coloração exacerbada. Uma parcela da imagem fica supersaturada. Na maioria do filme, este recurso é utilizado para causar um leve desconforto no espectador, através de imagens demasiadamente separadas e/ou profundidade de campo reduzida (o quanto enxergamos) que causam desconforto, como se nós estivéssemos passando pelos mesmos sentimentos dos personagens. Dessa forma, quando a tela fica preta ou uma imagem agradável é exibida sentimos um conforto quase etéreo, algo que aqueles personagens parecem estar experimentando; um vai e vem sentimental doloroso.CriançasDas formas em que o 3D é utilizado, uma em especial me chamou a atenção. Há um momento em que Godard emprega uma imagem que, não tenho certeza, me parece ter sido resultado da sobreposição de outras duas imagens, de forma que se cria um efeito novo e interessante. Com os dois olhos abertos vemos as duas imagens sobrepostas, com o olho direito aberto vemos a imagem à direita e com apenas o esquerdo, a imagem à esquerda. Por alguns minutos o espectador escolhe a forma de assistir ao filme. Um nível de interatividade nunca antes visto no cinema, que aproxima este meio do vídeo game e tem um potencial enorme, ainda não tão explorado, para ser aplicado. Ao final da projeção me encontrava em choque. Algo surpreendente e esperado ao mesmo tempo. Poderia ser diferente, vindo de um homem que viveu e vive em função do cinema?Exposição

                                                                                 

                                                         Adieu Godard

(quando questionado sobre o significado de “Adieu”, em entrevista, afirmou que no francês da Suiça, a palavra pode significar tanto Olá como Adeus)

Por Alan Leonel

Adeus à Linguagem (Adieu au Langage, França, Suiça, 2015)

Direção : Jean-Luc Godard

Roteiro : Jean-Luc Godard

Elenco :  Héloïse Godet, Kamel Abdeli, Richard Chevallier, Zoé Bruneau…

Duração : 70 min.

Uma consideração sobre “Adeus à Linguagem”

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