Luzes da Cidade

City_Lights_filmÉ impressionante como nos primeiros anos do cinema falado, Chaplin utiliza este recurso com tanta maestria e pureza, garantindo uma experiência que nunca parece datada. Apesar de ser sonoro, no filme não predominam diálogos, sendo o som composto majoritariamente da trilha sonora embutida e em alguns efeitos que são usados não só na comedia visual, na qual o homem de bigodinho e bengala era extremamente talentoso, mas também para sublinhar uma narrativa simples, mas bela, que mesmo com mais de 80 anos de idade não deixa de arrancar as mais verdadeiras lágrimas com seu jeito sereno e infantil, de certa forma, de se ver o mundo.

As gags são executadas com um domínio digno de um maestro. Se Hitchcock está para o suspense, Chaplin está para o humor. Mesmo alguém que não queira rir, por algum motivo, acaba cedendo pelos diversos malabarismos que fazem com que as piadas se interliguem de uma forma coesa e diversa, onde não se sabe quando e onde a próxima Gag irá vir. A música, nesse sentido, serve ao propósito do humor de uma forma sutil algumas vezes e obvia, mas eficiente em outras.

O simples acompanhamento das ações corporais de Chaplin são o objetivo da trilha, em alguns momentos do filme. Numa cena, o vagabundo suga o macarrão para dentro enquanto violinos na trilha sonora simulam um tipo de assobio (diga-se de passagem, a cena inteira é genial e imprevisível. Nela se encontra a famosa passagem em que Chaplin engole festim ao invés de macarrão). O típico humor pastelão, mas que nunca se torna chato ou previsível pela a habilidade que este autor tinha em alternar Gags de natureza diferente. E mesmo se fossem do mesmo tipo; bem, trata-se de uma pessoa que possuía talentos incríveis com a comédia visual e, ainda assim, não deixariam de ser engraçado.EspaghetiA trilha sonora, também, é utilizada de forma inovadora em alguns momentos. O humor visual acontece em meio a uma música cotidiana e rotineira que dá uma sensação estranhamente engraçada aquele momento. Este tipo de música dá um sentimento de uma progressão de ações naturais como em uma tarefa do dia-a-dia, contrapondo o humor, mas também dando-o uma certa graciosidade, sensação que se observa em filmes como 2001: Uma Odisseia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968) e Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971). Talvez, Kubrick tenha se inspirado em alguns dos filmes de Chaplin quando utilizava a música do jeito que utilizava.

Em outros momentos, a trilha se assume um amálgama de diversos sentimentos, despertando as sensações mais diversas em quem assiste. A música na cena famosa em que o vagabundo tem de vencer uma luta de boxe para conseguir o dinheiro que a mulher cega precisa é um exemplo. Ao mesmo tempo em que contrapõe o humor de um jeito único e inovador, sublinha aquela atitude com um semblante heroico. Mesmo aquilo sendo uma grande Gag (uma das melhores já feita), a música nos lembra que aquilo ainda é uma atitude nobre de um personagem lutando por algo belo.

Boxe

A narrativa é convencional; o romance clássico. Um homem conhece uma mulher. Os dois se apaixonam. O homem acaba se separando da mulher. Os dois se reencontram no final. Simples assim, e a trilha sonora acompanha exatamente todas essas fases da narrativa. Há uma música para o reencontro, uma música do casal e uma música que toca quando o vagabundo está tentando conseguir algo para a amada. Seria uma história bastante convencional, se as caracterizações do casal, a mulher cega e o vagabundo, não fossem de uma beleza poética pura.

É uma ironia que um personagem que é invisível aos olhos da sociedade; um homem que vaga sozinho pela multidão de pessoas e carros da grande cidade, sem nunca ser notado, se apaixone justamente por uma pessoa cega, alguém que não consegue distinguir as pessoas e fazer julgamentos. Seu sentimento é puro e se baseia no se sentir confortável ou não ao lado de alguém (embora em alguns momentos essa paixão passe por um certo interesse, já que o vagabundo consegue dinheiro para a mulher cega). A magistral trilha sonora, composta por Chaplin, parece captar um pouco dessa fantasia e pureza ao redor da relação dos dois. Em alguns momentos, a música soa mística, passeando pelas nossas sensações em busca de algo que nem quem a compôs ou nenhum outro ser humano, sabe ao certo o que é.Chaplin e Cega

Por Alan Leonel

City Lights  Luzes da Cidade, EUA, 1931)

Direção : Charlie Chaplin

Roteiro : Charlie Chaplin

Elenco : Charlie Chaplin, Virginia Cherril, Harry Myers, Florence Lee

Duração : 87 min.

Uma consideração sobre “Luzes da Cidade”

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