O Espirito da Colmeia

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Um uso muito particular de imagens e sons para se criar poesia, mas nunca uma poesia alheia, dissociada da realidade. Em O Espírito da Colmeia, a expressão revela sempre um estado de espírito, como se cada aspecto de cada quadro mostrasse-nos não apenas o que o autor está pensando e sentindo, mas servindo de espelho da alma para um país inteiro. Cada símbolo e gesto tem algo a nos dizer; cada movimento tem uma camada adicional metafísica e mesmo que uma ação não faça sentido, imediatamente, sabemos que, de alguma forma, aquilo está nos impactando de um jeito belo, quase subliminar, que encontra uma maneira discreta e abstrata de nos dizer concretamente: Olhe, é isso que estou sentindo.

O filme não se trata de um narrativo clássico. Não há uma ação crescente, nem um clímax forte. Simplesmente acompanhamos duas garotinhas, Ana (Ana Torrent) e Isabel (Isabel Tellería) no seu dia-a-dia. Em um momento, as duas assistem Frankenstein, de 1931, e isso acaba acarretando uma mudança sutil, mas ao mesmo tempo, muito forte.d2d4e0ba19fed8a32814060328187127

O que se tem de perceber é que há uma camada metafísica em tudo o que se vê e ouve no filme. Nada quer dizer, apenas, o que se enxerga na superfície. Temos sempre que adiantar o passo e tentar entender o que está sendo dito. A metáfora com as abelhas parece ser a mais forte das associações que o filme propõe. As janelas, quase todas com padrões hexagonais, remetem as paredes de uma colmeia, aludindo ao estado de espírito daquela família e da sociedade espanhola dos anos 40. Parecem enclausurados em um regime, completamente alienados e desprovidos de qualquer criatividade, como as abelhas que apenas produzem seu mel, alheias a realidade e confinadas a trabalhar sem saber para quem e por quê.

As abelhas são constantemente filmadas em um plano melancólico, que as mostra fora do seu habitat natural, dentro de recipientes fechados e apertados, infelizes e perdidas. Vemos as abelhas zanzando sem direção e uma, especificamente, parada; como quem olha para o horizonte sem saber o que fazer. O tom amarelado da luz, além de sugerir um lugar velho e atrasado, dá uma cor de mel a tudo, aproximando ainda mais essa relação com as abelhas.COLMENA-3A família parece ir desgastando suas relações cada vez mais à medida que o filme se passa. Quase nunca vemos a família junta, nem mesmo o marido Fernando (Fernando Fernán Gómez) e Teresa (Teresa Gimpera), vendo, em um momento, apenas o rosto de Teresa enquanto ouvimos a movimentação de Fernando e vemos a sua sombra projetada na esposa. As plantações mortas e empoeiradas, os edifícios em ruinas e os cômodos vazios refletem as relações entre aquela família, e que, para mim, representa a Espanha como um lugar desgastado e fragmentado.

Alguns símbolos chegam até a destacar aquele lugar, não só como uma representação da Espanha dos anos 40, mas toda a história daquele país. Algumas construções medievais, a natureza camponesa da vila em que se passa a história, bem como uma cena específica em que se vê crianças pulando uma fogueira, aludem a um passado sombrio e, em alguns casos, não tão distante.

As duas garotinhas soam como representações da nova geração daquele país. Os padrões hexagonais na janela sugerem um ciclo da vida inevitável; as meninas tem que dar continuidade à geração passada. Isabel é a mais brincalhona, mas, ao mesmo tempo, a que parece mais acomodada com aquela situação. Já Ana é inocente, mas parece ter algum tipo de preocupação; saber que há algo de errado naquele universo.espiritu_2O Frankenstein parece ser o que é de pior naquela sociedade, mais especificamente, a ditadura de Franco. O monstro é o que incita a mudança nas duas garotinhas, sublinhando o maior tema do filme. Enquanto Isabel parece ignorar o monstro, Ana reconhece a sua presença e isso parece minar a sua inocência e a infância; enquanto é exposta a um mundo cruel e indiferente aos seus sonhos, Ana sofre uma mudança, que sempre se manifesta de forma discreta e bela e que faz com que, no final, a garotinha se acostume com a dura realidade, como sua irmã diz em um ponto do filme: “Tudo no cinema é falso, é tudo ilusão”.0153023_40483_MC_Tx360Um símbolo, que aparece diversas vezes, me chamou atenção. Um relógio de bolso que ao abrir, toca uma música nostálgica que remete a infância, aos sonhos e fantasias. Esse relógio pertence a Fernando, mas em um momento, passa pelas mãos de um fugitivo do governo, provável membro da resistência republicana, e de um general. No final do filme, esse relógio acaba voltando para Fernando, num desfecho triste, mas feliz de uma certa maneira. Sugerindo que, para aquelas pessoas, resta apenas esperar aquele tempo ruim passar e se agarrar nos sonhos.ari-kovaninin-ruhu-fragmani-izle_28

O Espírito da Colmeia (El Espíritu de la colmena, Espanha, 1973)

Direção : Victor Erice

Roteiro : Victor Erice, Ángel Fernández Santos, Francisco J. Querejeta

Atores : Ana Torrent, Isabel Tellería, Fernando Fernán Gómez, Teresa Gimpera…

Duração : 97 min.

2 comentários em “O Espirito da Colmeia”

    1. É um pouco melancólico, principalmente no final, na forma que o filme retrata a perda da inocência de Ana. Mas as crianças são muito bonitinhas e estão muito orgânicas. A curiosidade delas e as brincadeiras que elas fazem, faz agente lembrar da infância, isso contrabalanceia um pouco.

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