Rebecca

POSTERUma das grandes obras do maestro e seu primeiro filme nos EUA, Rebecca têm a característica do que se chama um filme Hitchcockiano. E que característica é essa? Para mim, todos os filmes do mestre do suspense tem apenas uma coisa em comum: um entendimento e domínio absoluto da arte cinematográfica. O cinema como uma grande máquina repleta de parafusos e válvulas e Hitchcock como alguém que sabe exatamente como opera-la para conseguir o resultado desejado.

O aspecto que mais diverge dos outros filmes do mestre inglês é a natureza das ações. A maioria dos seus filmes anteriores tinham como base fugas, perseguições, buscas. Algo de natureza física, visível; ação como movimento. No longa de 1940, a grande maioria das ações são psicológicas, atmosféricas, intangíveis. O grande motivador tanto da história como do estilo é de como Rebecca de Winter, mesmo estando morta, afeta a vida de uma jovem mulher (Joan Fontaine), cujo nome nunca é revelado, que acabou de se casar com Maxim (Laurence Olivier), ocupando o lugar da sua falecida esposa. As influências da antiga senhora de Winter são sentidas tanto de forma psicológica como de forma concreta, mas, das duas maneiras, afetando o casal.

Rebecca (1940) Directed by Alfred Hitchcock

A mansão, Manderley, é uma peça central para a criação da atmosfera do filme. Os cômodos são enormes, bastante abertos, muito bem mobiliados e com contornos extremamente rebuscados e valiosos. Isso é um dos motivos que fazem com que a nova senhora de Winter não se sinta confortável na sua nova casa. A enorme formalidade é algo presente no cotidiano da mansão. Cada refeição é servida no horário correto, dentro de recipientes de prata e por um exército de funcionários que estão à disposição para auxiliar em qualquer dificuldade. Não são poucas as situações em que jovem mulher se sente desconfortável. Não só com esse ambiente e essa rigidez, mas com a constante comparação a antiga senhora de Winter. Rebbeca é presente naquela mansão pela relação com os funcionários (uma em particular continua “leal” a ela) e também pelos grandes “R” que aparecem bordados em lenços e lençóis por quase todo lugar, implicando que mesmo morta ela ainda está ali; como sugerido pelo poético plano sequência que abre o filme. Vemos a jovem mulher sonhando com a mansão, em um momento, uma nuvem projeta uma sombra no lugar da mesma forma como a influência de Rebecca na vida do casal. Uma sombra que deixa tudo escuro, mas é passageira.

Sendo a sociedade dá época muito mais machista se esperava da mulher que sua função fosse apenas a de “esposa”. Isso, para a jovem, é expresso nos momentos em que fica sozinha na casa. Os funcionários sugerem para ela sempre a rotina da falecida esposa, relatando que naquele determinado horário, ela geralmente escrevia cartas, ou se embelezava no seu quarto. Algumas vezes, a nova senhora Winter acata essas sugestões substituindo, de fato, o lugar que era ocupado por Rebecca.R DE REBECCAApesar desse desconforto a jovem aparenta estar perdidamente apaixonada por Maxim, mas sempre com certo receio da natureza do relacionamento entre os dois. No início, paira a dúvida de que ele se casou com ela apenas para tapar o buraco deixado pela falecida esposa. Já em outro momento, ela desconfia que Maxim esteja ainda perdidamente apaixonado por Rebecca e por isso não se sente atraído por ela. Tudo é preparado para o que acontecerá no futuro do filme. Nada é por acaso. Essas informações são base para algo importante que, adivinhe, você terá de assistir o filme para saber o que é.ELE E ELA ABRAÇADOSCom isso não me refiro apenas aos Closes que demonstram com certa obviedade, mas inegável eficiência, um acontecimento. Hitchcock apresenta algumas situações de forma discreta, construindo uma rede impecável, mas sutil entre os personagens e suas ações de forma que quando uma informação ou situação é apresentada a reação seja um longo “Aaah táááá” exclamado mentalmente. Além disso, o maestro demonstra um domínio absoluto do suspense, algo que viria a ser  confirmado com propriedade ainda maior nos seus filmes seguintes. O jogo com as informações, característico deste gênero e, consequentemente, do seu mestre, fica claro no filme. É revelada apenas uma parcela da informação sobre alguém ou alguma situação de forma que fiquemos tensos para saber o que aconteceu ou o que irá acontecer.

Em uma ocasião, a jovem quebra uma pequena estátua por acidente. Apenas ela e o espectador, é claro, sabem disso. Mais tarde ela é confrontada sobre isso, sendo informada que um dos empregados foi acusado de quebrar esta estátua e corre risco de demissão. Por gostarmos da protagonista e pela informação ter sido escondida das outras pessoas, ficamos na expectativa de que ela conte a verdade. Cada segundo a mais aumenta esta tensão, pegando o espectador em uma armadilha sadicamente preparada por um homem que, sem dúvida alguma, entendia de cinema.rebecca_1621669i Por Alan Leonel Rebecca ( Rebecca, A Mulher Inesquecível, EUA, 1940)

Direção : Alfred Hitchcock

Roteiro : Philip MacDonald, Michael Hogan, Joan Harrison, Robert E. Sherwood, Daphne du Maurier (História)

Elenco : Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson

Duração : 130 min.

O Espirito da Colmeia

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Um uso muito particular de imagens e sons para se criar poesia, mas nunca uma poesia alheia, dissociada da realidade. Em O Espírito da Colmeia, a expressão revela sempre um estado de espírito, como se cada aspecto de cada quadro mostrasse-nos não apenas o que o autor está pensando e sentindo, mas servindo de espelho da alma para um país inteiro. Cada símbolo e gesto tem algo a nos dizer; cada movimento tem uma camada adicional metafísica e mesmo que uma ação não faça sentido, imediatamente, sabemos que, de alguma forma, aquilo está nos impactando de um jeito belo, quase subliminar, que encontra uma maneira discreta e abstrata de nos dizer concretamente: Olhe, é isso que estou sentindo.

O filme não se trata de um narrativo clássico. Não há uma ação crescente, nem um clímax forte. Simplesmente acompanhamos duas garotinhas, Ana (Ana Torrent) e Isabel (Isabel Tellería) no seu dia-a-dia. Em um momento, as duas assistem Frankenstein, de 1931, e isso acaba acarretando uma mudança sutil, mas ao mesmo tempo, muito forte.d2d4e0ba19fed8a32814060328187127

O que se tem de perceber é que há uma camada metafísica em tudo o que se vê e ouve no filme. Nada quer dizer, apenas, o que se enxerga na superfície. Temos sempre que adiantar o passo e tentar entender o que está sendo dito. A metáfora com as abelhas parece ser a mais forte das associações que o filme propõe. As janelas, quase todas com padrões hexagonais, remetem as paredes de uma colmeia, aludindo ao estado de espírito daquela família e da sociedade espanhola dos anos 40. Parecem enclausurados em um regime, completamente alienados e desprovidos de qualquer criatividade, como as abelhas que apenas produzem seu mel, alheias a realidade e confinadas a trabalhar sem saber para quem e por quê.

As abelhas são constantemente filmadas em um plano melancólico, que as mostra fora do seu habitat natural, dentro de recipientes fechados e apertados, infelizes e perdidas. Vemos as abelhas zanzando sem direção e uma, especificamente, parada; como quem olha para o horizonte sem saber o que fazer. O tom amarelado da luz, além de sugerir um lugar velho e atrasado, dá uma cor de mel a tudo, aproximando ainda mais essa relação com as abelhas.COLMENA-3A família parece ir desgastando suas relações cada vez mais à medida que o filme se passa. Quase nunca vemos a família junta, nem mesmo o marido Fernando (Fernando Fernán Gómez) e Teresa (Teresa Gimpera), vendo, em um momento, apenas o rosto de Teresa enquanto ouvimos a movimentação de Fernando e vemos a sua sombra projetada na esposa. As plantações mortas e empoeiradas, os edifícios em ruinas e os cômodos vazios refletem as relações entre aquela família, e que, para mim, representa a Espanha como um lugar desgastado e fragmentado.

Alguns símbolos chegam até a destacar aquele lugar, não só como uma representação da Espanha dos anos 40, mas toda a história daquele país. Algumas construções medievais, a natureza camponesa da vila em que se passa a história, bem como uma cena específica em que se vê crianças pulando uma fogueira, aludem a um passado sombrio e, em alguns casos, não tão distante.

As duas garotinhas soam como representações da nova geração daquele país. Os padrões hexagonais na janela sugerem um ciclo da vida inevitável; as meninas tem que dar continuidade à geração passada. Isabel é a mais brincalhona, mas, ao mesmo tempo, a que parece mais acomodada com aquela situação. Já Ana é inocente, mas parece ter algum tipo de preocupação; saber que há algo de errado naquele universo.espiritu_2O Frankenstein parece ser o que é de pior naquela sociedade, mais especificamente, a ditadura de Franco. O monstro é o que incita a mudança nas duas garotinhas, sublinhando o maior tema do filme. Enquanto Isabel parece ignorar o monstro, Ana reconhece a sua presença e isso parece minar a sua inocência e a infância; enquanto é exposta a um mundo cruel e indiferente aos seus sonhos, Ana sofre uma mudança, que sempre se manifesta de forma discreta e bela e que faz com que, no final, a garotinha se acostume com a dura realidade, como sua irmã diz em um ponto do filme: “Tudo no cinema é falso, é tudo ilusão”.0153023_40483_MC_Tx360Um símbolo, que aparece diversas vezes, me chamou atenção. Um relógio de bolso que ao abrir, toca uma música nostálgica que remete a infância, aos sonhos e fantasias. Esse relógio pertence a Fernando, mas em um momento, passa pelas mãos de um fugitivo do governo, provável membro da resistência republicana, e de um general. No final do filme, esse relógio acaba voltando para Fernando, num desfecho triste, mas feliz de uma certa maneira. Sugerindo que, para aquelas pessoas, resta apenas esperar aquele tempo ruim passar e se agarrar nos sonhos.ari-kovaninin-ruhu-fragmani-izle_28

O Espírito da Colmeia (El Espíritu de la colmena, Espanha, 1973)

Direção : Victor Erice

Roteiro : Victor Erice, Ángel Fernández Santos, Francisco J. Querejeta

Atores : Ana Torrent, Isabel Tellería, Fernando Fernán Gómez, Teresa Gimpera…

Duração : 97 min.