Passos na Noite

where-the-sidewalk-ends-movie-poster-1950-1020413541Passos na Noite (Where the Sidewalk Ends, 1950) é, ao mesmo tempo, um filme que segue e não segue as “regras” que se convencionou como características de um Noir. Tem no seu esqueleto chapéus e cigarros, sombras e disparos, claro, mas é a prova viva de que o que se denomina Filme Noir é um estado de espírito e não um gênero. Esses filmes podem ter elementos recorrentes e até serem muito parecidos, mas não precisam seguir fórmulas ridiculamente estabelecidas para serem enquadrados em uma “categoria”, que sequer existe. Prefiro dizer que os filmes dos anos 40 e 50 deixaram uma contribuição incomensurável para o cinema, e que até hoje, são inspiração para os cineastas.

A chave é entender o que essa leva de filmes têm como característica central a sua maneira de retratar a sociedade. O sentimento de aprisionamento, a desesperança, a visão de um mundo corrompido em que se age apenas por interesse são os aspectos mais fortes desse cinema e os aspectos que são mais capazes de aproximar um filme a outro. A maneira de retratar essas visões e angústias, é claro, diferem de filme para filme, mas o alto contraste e as formas pontiagudas parecem predominar, embora não se deva caracterizar esses filmes de acordo com essa estética.wherethesidewalkends2Nesse sentido, Passos na Noite retrata desde os primeiros planos estes sentimentos. Vemos partes de calças e sapatos sociais transitando pela calçada até chegar a um bueiro por onde corre o que tem de mais sujo naquela cidade. Durante esse percurso, os sons dos carros e suas buzinas denunciam uma metrópole caótica em que se perdeu o senso de coletividade e cada um vive por si. Ao longo do filme acompanhamos o detetive Dixon (Dana Andrews) durante uma jornada trágica e reveladora, se relacionando com mafiosos e uma polícia ineficiente. O destino do detetive parece inevitável. Parece estar fadado a se tornar como o pai, um criminoso que morreu tentando escapar da cadeia quando Dixon tinha 17 anos. Embora seu grande objetivo seja movido por motivos pessoais, na maioria das ocasiões revela-se como um sujeito correto. Age dessa maneira até quando comete um crime e tem a oportunidade de confessa-lo ou mentir, e para se safar, acaba escolhendo a segunda opção.Dana Ai parece ser sublinhado o maior tema do filme. Basta apenas uma situação em que se tenha a opção de contar a verdade ou mentir, para que uma pessoa se torne criminosa. Dixon, que de inicio tem ojeriza a criminosos e quer coloca-los na cadeia a qualquer custo, acaba se tornando um, até em um momento aparecendo com um bandeide no rosto, assim como usava o criminoso que ele assassinou. O filme pede a opinião do espectador quando nos demonstra esta situação e o contexto em que o detetive se encontra. Se coloque no lugar dele; cometer um crime sem intenção, sabendo que a polícia é ineficiente e o seu universo é injusto. Como proceder diante dessas circunstancias?

É revelador como quando o detetive tem a chance de escapar impune, acaba confessando o crime e sendo preso. Algo que demonstra bastante da relação que tinha com o pai. O instinto de se afastar do destino que ele teve fala mais alto e Dixon opta por confessar. Não por altruísmo ou senso de justiça, mas simplesmente por ter o pai como um exemplo bastante negativo.gary-merrill-wherethesidewalkends-3Otto Preminger movimenta a câmera como um virtuoso. Seus travellings (deslocar a câmera no espaço) passeiam entre os atores graciosamente, entendendo perfeitamente os personagens e seus objetivos. Em uma cena, quando o detetive descobre que o mafioso está morto, a câmera se aproxima lentamente do rosto de Dixon para enxergamos seu pior medo e desespero profundo em estar se aproximando do pai.

O uso da música, de forma a incorpora-la como uma ferramenta para acrescentar realismo é fantástico. Pode-se ouvir Para Elisa, de Beethoven, enquanto o detetive tenta carregar um corpo nos ombros sem ser notado. Nos é revelado, depois, que uma senhora que mora ao lado escuta música enquanto dorme. Contrapõe-se completamente o sentimento daquelas imagens, se adicionando uma camada de realismo e subjetividade a elas. Uma das coisas que mais me impressiona no filme é a maneira de retratar as brigas. Por meio do realismo, esses conflitos físicos são apresentados com violência. Em alguns momentos ouve-se apenas as respirações ofegantes de quem briga e o barulho do contato de seus corpos. A reação aos golpes é natural e crua, de uma maneira que não se faz mais. Na maioria do cinema que assistimos, as brigas parecem cada vez mais e mais ensaiadas e artificiais, não mais o conflito em si, mas sua caricatura. Nada poderia combinar mais com o tom desesperançoso, individualista e enclausurado do filme, que um conflito físico que demonstra não diversão ou entretenimento, mas medo, angústia, dor e uma vontade desesperada de escapar daquilo.tumblr_llat84LSqo1qhlul0o1_500 Passos na Noite (Where the Sidewalk Ends, EUA, 1950)

Direção : Otto Preminger

Roteiro : Ben Hecht

Atores : Dana Andrews, Gene Tierney, Gary Merrill…

Duração : 95 min.

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