De quem é o filme?

Depois de muito tempo refletindo sobre essa questão, a resposta me vem naturalmente. Qualquer que seja o filme, curta ou longa, a partir do momento que é lançado em algum circuito, seja comercial ou em festivais, passa a ser um patrimônio do público e não pode ser modificado.

Quanto a essa questão bato o pé. Qualquer que seja o filme, independente do que aconteceu a ele antes de ser lançado, mesmo se foi picotado por alguém que não o diretor (algo que é abominável) ou se foi censurado, o filme deverá permanecer como estava na primeira vez que foi exibido.

A obra cinematográfica é fruto, entre outras coisas, do contexto sócio histórico em que foi realizada, logo, quando se modifica algum aspecto dessa obra, mesmo que seja  para respeitar a visão do diretor, perde-se esse aspecto e o filme é deturpado. E é importante dizer, que todos os aspectos de um filme comentam sobre esse contexto, não só os personagens, história e temas, mas a forma do filme diz respeito a o que quem o realizou estava sentindo e em que contexto vivia (não há problema em corte do diretor ou outra versão do filme, desde que não substitua ou dificulte o acesso do original, é bom frisar).

Há alguns casos em que, acredito eu, há unanimidade em relação a reconhecer a deturpação da obra. Casos como Guerra nas Estrelas Episódio IV (1977) ou THX 1138 (1971), ambos dirigidos por George Lucas e que foram vergonhosamente deformados com inserções de diversos efeitos digitais, alguns desses efeitos chegando até a modificar o sentido original da obra. Como em um dos exemplos mais conhecidos: “Han shot first”.

Já em outro caso, como Spartacus (1960), de Kubrick, a situação é mais complicada. O filme teve uma cena (conheço uma apenas) excluída, pois o estúdio ou um produtor achou que o público não iria aceitar. A cena se trata de uma conversa entre um senhor e seu servo, em que, o senhor insinua uma relação homossexual. Nesse caso, se ganha na fidelidade à visão do diretor, claro, mas em contra partida, perde-se todo contexto sócio histórico que o filme tinha. A ausência do tratamento desse tema nesse filme, bem como em outros, revela os valores que a sociedade americana tinha na época, o que ela considerava moral e imoral, digno ou indigno. Mesmo sendo valores profundamente corrompidos e odiosos, devem estar presentes na obra.

Há, em qualquer filme, um equilíbrio entre diversas forças que atuam nas suas mensagens. Chamo-as de força criativa; as bases do que o filme quer dizer a quem o assiste. O trabalho do diretor, imposições sociais, contexto histórico, entre outros, são essas forças; e quando se altera alguma cena da versão original perde-se algo disto. Pense em um grande castelo de cartas. O castelo inteiro só existe como foi montado, com todas as cartas e no seu arranjo original. E mesmo se retirarmos apenas uma cartinha do topo, mudarmos cartas de lugar ou adicionarmos uma nova carta, por mais insignificante que seja esta mudança, o castelo que resultar não será  mais aquele que se tinha no início.

Por Alan Leonel

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